29/09/06

SOLTAS

CONTAS, contas e mais contas é o que se antevê para as equipas portuguesas presentes na Liga dos Campeões. As contas de VEDETA DA BOLA dizem-lhe que ao Benfica poderá bastar o empate em Glasgow seguido naturalmente de duas vitórias nos jogos em casa com Celtic e Copenhaga, para poder viajar para Old Trafford com o apuramento alinhavado. Ao Sporting daria jeito ganhar o jogo caseiro com o Bayern, mas se obtiver dois empates frente aos bávaros também poderá dormir descansado. Apenas um ponto com o Bayern pode obrigar a pontuar em Milão, caso o Inter vença em Moscovo. Será certamente imperioso ganhar em casa ao Spartak na última jornada. Quanto ao F.C.Porto, tem de fazer quatro pontos com o Hamburgo, e mesmo assim não se deve salvar da necessidade de pontuar em Moscovo e frente ao Arsenal no Dragão.

A CONTESTAÇÃO a Fernando Santos está a assumir um nível que se poderá tornar irreversível caso mais algum resultado negativo surja no futuro imediato. No estádio, nos blogues, nas ruas, não há benfiquista que não condene um treinador que, na verdade, nunca foi muito desejado. Vencer o Desp.Aves é imprescindível de modo a afastar esta nuvem negra de cima da cabeça de um treinador competente e honesto, que tem o seu trabalho ainda a meio.

A ELIMINATÓRIA da Taça Uefa provou que o futebol português, grandes clubes à parte, não tem estofo internacional. Duas eliminações e uma qualificação sofridíssima de um Braga que parecia levar para Verona a eliminatória já no bolso. A propósito de Uefa, olhando aos nomes dos apurados, a competição secundária poderá tornar-se num bom palco para os anseios europeus dos relegados da Champions League. À atenção dos grandes.

LUIZ FELIPE SCOLARI surpreendeu ao convocar dois centrais desconhecidos para os próximos jogos da selecção. Contando com Ricardo Carvalho, Jorge Andrade, Fernando Meira, Ricardo Rocha, Tonel e Ricardo Costa para a posição, não seria mais aconselhado optar por experimentar avançados ?

ANTÓNIO VELOSO (pai de Miguel Veloso) fez uma bonita carreira no Benfica, tornando-se internacional e capitão de equipa durante vários anos. Agora, com o filho no Sporting, deu uma entrevista a acusar o Benfica sua direcção e treinadores de tudo e alguma coisa. Para além da ingratidão do gesto, fica o sabor a oportunismo, em nome da promoção do filho em Alvalade, e a rancor pelo facto de ter sido afastado da equipa técnica encarnada depois de ter sido adjunto na época do 6º lugar (pior classificação de sempre do clube), e responsável pela equipa B no ano seguinte, fazendo-a descer à III divisão. Esta entrevista fez ainda aos benfiquistas recordar que foi um penálti falhado por Veloso que custou ao Benfica aquela que seria a sua terceira Taça dos Campeões Europeus. Devia ter estado calado.

O CASO MATEUS está a chegar ao fim, e de forma dramática para os jogadores e adeptos gilistas. Em nome de uma teimosia e aconselhado por juristas incompetentes, mau grado a fama que possam ter, o Gil Vicente pela mão do seu presidente embarcou num caminho sem saída rumo ao abismo.
Perdeu nove pontos no campeonato, perdeu 14 jogadores do plantel (ente os quais ironicamente o próprio Mateus), perdeu o respeito dos portugueses. O que ganhou ?

SAMUEL ETO’O vai ficar parado cinco meses. Trata-se de uma péssima notícia para o Barcelona, que não tem substituto à altura do camaronês. Não fosse o golo providencial de Lionel Messi em Bremen a evitar uma comprometedora derrota e, com o duplo confronto com o Chelsea à porta, a vida do campeão europeu estaria em sério perigo na Champions.

GOLPE DE ESTÁDIO (4)

Pinto da Costa tinha a consciência de que era ele quem mandava no futebol. Aos poucos,
apoderou-se dos centros de decisão mais importantes, oferecendo lugares a pessoas da sua
inteira confiança cuja personalidade era marcada pela ausência de escrúpulos, dignidade e
vergonha, transformando-as em autênticas marionetas.
A Olivedesportos e a agência de viagens(Cosmos) sobrefacturavam tudo o que estava
ligado ao futebol, e ninguém se queixava. Os contratos federativos eram assinados sem que
a concorrência fosse levada em linha de conta, e como Pinto da Costa falira todas as suas
empresas, queimando milhares de contos ganhos à custa do seu clube, tinha de apostar forte
nesta sua nova estrutura financeira. Mas os inimigos que fora deixando atrás de si,
principalmente aqueles que discordavam da forma pouco honesta como ele geria esta
situação, procuravam todas as provas com o sentido de o desmascarar. Devido às imensas
vigarices que fez, Pinto da Costa estava impedido de passar cheques e constituir qualquer
empresa, mas rodeou-se de gente da sua inteira confiança para lhe dar cobertura para os
seus negócios e não deixar rastos para qualquer acusação.
Já tinha organizado o seu braço armado, cuja chefia do sector entregou ao irmão de
Reinaldo Teles. O medo silenciava os que tinham vontade de falar. Constituiu depois o braço
jurídico, rodeando-se de advogados de poucos escrúpulos, mas peritos em matéria de crime,
que lhe davam todos os conselhos necessários à gestão da situação, bem como as fórmulas
para camuflar todas as provas capazes de pôr a nu os processos marginais utilizados para a
soma dos dividendos. A cobertura política fechava o círculo.
Pinto da Costa achava-se cada vez mais forte e impenetrável. A sua vaidade levou-o
mesmo a pensar que, pelo menos, no Norte, ninguém tinha mais poder do que ele, e o certo
é que, mesmo sabendo-se dos negócios ilícitos e ligações a pessoas como Reinaldo Teles,
numa sociedade discriminatória e preconceituosa, toda a gente vergava a espinha na
tentativa de poder servir o dono do futebol.
O facto de Reinaldo Teles ser o seu homem de confiança e de estar fortemente envolvido
em tráfico de carne branca, com a importação maciça de prostitutas brasileiras para o seu
bar e para outros, enquanto alguns dos seus familiares surgiam envolvidos em negócios de
droga, não tinha o mínimo peso no conceito das grandes famílias. Reinaldo Teles ganhou
peso e prestígio, e mesmo a sua mulher, Luísa, apesar de se conhecer a sua responsabilidade
na gestão do putedo do seu bar, era acolhida no seio do clube e na sociedade nortenha como
uma grande dama, merecendo, inclusive, por parte das mulheres de outros vices do clube,
com muito maior peso moral e sem passado na Rua Santos Pousada, um acolhimento fora do
vulgar. Esta empatia, dizia-se, ficava a dever-se a algumas festas livres organizadas por Luísa
nos quartos de hotéis durante as viagens do clube ao estrangeiro. Luísa já há muito que tinha
perdido o gosto pelos homens. E as mulheres começaram a ser a sua grande paixão.
Reinaldo Teles não parava de subir na estrutura do clube e na consideração de PC. O
jovem que muitos anos antes tinha vindo servir na tasca do tio, estava em verdadeira
ascensão. Já ninguém o conseguia parar. O trabalho que desenvolvera durante cerca de três
anos a levar prendas aos árbitros e familiares em dias de aniversário fizera com que
angariasse grandes amizades no sector, que se foram prolongando em visitas ao seu bar.
Reinaldo Teles sabia como gerir essa situação:
-Presidente, há duas coisas a que os homens não resistem: mulheres e dinheiro.
-Eu que o diga. Só de me lembrar que andei 40 anos in vitro, até me dá agonia. Foste tu
que me deste a conhecer a vida e que me ensinaste a tirar partido dela.
-Reinaldo Teles tinha em mente um plano que antevia ser bastante rentável e discutiu-o
com o presidente.
-A maior parte dos árbitros está na minha mão. Tenho-lhes arranjado umas gajas, e no
meu bar nenhum deles paga copos. Penso que chegou a altura de rentabilizar esse meu
investimento, e podemos dividir os lucros.
Pinto da Costa ouviu com atenção o plano de Reinaldo, mas não respondeu logo.
Levantou-se da sua secretária, dirigiu-se a um gabinete ao lado, tropeçou no fio do telefone e
quando voltou disse com uma calma impressionante:
-Esse assunto é muito delicado e perigoso. Eu não posso aparecer nem sequer ser
suspeito. Não quero o mínimo de contactos com qualquer árbitro. Trata tu dessa situação e
vais-me informando de como tudo se está a passar. Ah!... Não te esqueças dos lucros.
-Não se preocupe presidente. Vou tratar das coisas à minha maneira.
O negócio do bar de Reinaldo Teles estava em completa ascensão. As mulheres
contratadas eram seleccionadas entre as melhores e quem fosse amigo do patrão não tinha
de pagar tanto champanhe para poder usufruir de uma boa companhia. Alguns dirigentes de
futebol tornaram-se clientes assíduos do bar de Reinaldo e começaram a reparar nos
estreitos laços de amizade que existiam entre os árbitros e Reinaldo.
Ia começar mais uma sessão de strip-tease, quando o empregado colocou uma garrafa
ainda intacta de whisky velho sobre uma mesa. Encheu dois copos, perguntou aos clientes se
queriam muito gelo, e um deles, acenando com a cabeça, pediu coca-cola para misturar.
Quando o empregado se preparava para rodar sobre os calcanhares, o outro pediu:
-Diga por favor ao Reinaldo Teles se pode vir aqui à mesa tomar um whisky comigo.
-Dou já o recado ao patrão - disse o empregado, enquanto se dirigia para o balcão.
Reinaldo olho por cima das mesas para verificar quem o tinha convidado, e viu que se
tratava do presidente e o chefe de departamento de futebol de um clube nortenho.
Largou um sorriso disfarçado e fez sinal de que ia já lá ter.
Começou o strip-tease e, na parte final, o presidente do tal clube já tinha esquecido o
futebol, concentrando-se noutras jogadas.
-Mas que ricas mamas a gaja tem!
-Quando o Reinaldo vier cá, vamos mandá-la vir para a nossa mesa.
Vinte minutos depois, Reinaldo Teles sentava-se na mesa dos dois elementos que o
tinham convidado, e o tal presidente, sem esquecer as mamas da striper, perguntou de
imediato:
-A gaja não pode vir para a nossa mesa?
-Quem? A striper?
-Essa mesmo.
-Deixe-se disso. Tenho aqui coisa muito melhor, e de qualquer forma não é possível
chamá-la porque ela tem outro espectáculo no «Pérola Negra» e já se foi embora.
Reinaldo Teles olhou para trás, fez um gesto ao seu empregado para se aproximar,
falando-lhe no ouvido. Dois minutos depois estavam a sentar-se na mesa duas belas
raparigas.
-Diga se isto não é muito melhor.
Os dois comparsas olharam-se de frente e concordaram em surdina. Veio champanhe
para a mesa, e as carícias das mulheres fizeram esquecer por completo o que tinha motivado
os dois elementos a chamarem Reinaldo.
Discretamente, Reinaldo saiu da mesa e foi juntar-se a outros clientes.
No dia seguinte, os mesmos indivíduos lá estavam a marcar presença:
-Desta vez temos mesmo de falar com o homem, por causa do árbitro de domingo -
disse o presidente, afundando os dedos nas coxas de uma rapariga.
O chefe de departamento de futebol, enquanto concordava com a ideia, lançava um
sorriso à miúda do dia anterior.
Não esteja com essas merdas. Hoje vamos falar de coisas sérias.
O empregado trouxe a garrafa com o whisky que sobrara do dia anterior e levou o
mesmo recado ao patrão.
Reinaldo Teles sentou-se novamente na mesa dos clientes do dia anterior e não deixou
de perguntar:
-Então, gostaram do material de ontem?
-Gostamos, mas hoje queremos outra coisa...
-Isso arranja-se. Há ainda coisa melhor.
-Não é disso que estamos a falar.
-Ai não? Então de que é?
-Você é amigo de tantos árbitros e nós no domingo precisamos de ganhar. Podia falar
com o António Batista... e é só dizer quanto quer.
Reinaldo não respondeu logo, mas passados uns segundos levou aos lábios o copo que
trazia na mão e acabou por dizer:
-Amanhã falo com ele, sem falta. Deixe isso comigo.
-Quanto é que temos de dar?
-Depois combina-se isso.
No dia seguinte, Reinaldo estava a telefonar para o emprego do árbitro.
-Ó pá, no domingo vais apitar um jogo dum gajo muito meu amigo. Não quero pedir
favor nenhum, mas pelo menos não o prejudiques.
-Ele pode ficar descansado, e se for necessário, até se dá uma ajudazinha. Sem
escândalos, para não haver merdas.
-Isso é o ideal. Porta-te bem, que vais receber uma boa prenda.
-Fica à vontade, que eu trato do resto.
Radiante com a situação, Reinaldo viu logo que aquilo era um negócio dos diabos. Não
tinha dúvidas, eram favas contadas.
Telefonou ao presidente do tal clube e não esteve com meias medidas.
-Está tudo resolvido. Não vai ser por causa do árbitro que vocês vão perder. Ele diz que
vai dar uma ajuda, mas não entra em escândalos. Os vossos jogadores que se esforcem, que
caiam na área, que de resto não vai haver problema.
-E quanto é que temos de dar ao homem?
-Hoje, sem falta, venham ao meu bar e tragam 800 dele, que eu é que me encarrego de
dar o bolo ao homem.
-Reinaldo, está combinado.
Nesse dia à noite lá estavam os dois com o cheque, que entregaram directamente a
Reinaldo Teles. Reinaldo estava com Jorge Gomes, seu amigo de todos os dias e das grandes
farras. Gomes era o homem da sua confiança e o pombo-correio das notícias que mais
interessavam.
Reinaldo Teles resolveu abrir-se com o amigo.
-O Mesquita, o presidente do clube...
-Já sei quem é. Aquele que esteve um dia destes aí - atirou Jorge Gomes.
-Veio falar comigo para eu combinar com o árbitro do jogo dele de domingo. Já está
tudo acertado. O homem entregou-me agora 800 contos, mas tenho um problema! No
domingo jogamos fora e não vou poder estar nesse jogo. Tu é que podias ir lá e entregar o
dinheiro ao árbitro no final do jogo. Vais jantar com ele. Ninguém te topa e entregas-lhe a
pasta. Mas não é todo. Ele leva quinhentinhos, e o resto é para mim e tu também tens a tua
parte.
Conforme o combinado, no domingo lá estava o Jorge Gomes. O jogo correu às mil
maravilhas, e o clube ganhou sem dificuldades. Verificando que aquilo tinha sido fácil de
mais, Jorge Gomes começou a pensar que era uma dor de alma estar a dar ao árbitro os 500
contos, e a partir daí tomou uma resolução. Encontrou-se com o árbitro no final da partida,
foi jantar com ele e os fiscais de linha, pagou a conta e no final disse:
-Amanhã, passem pelo bar do Reinaldo para beberem um copo, que ele tem lá uma
prenda para vocês.
O árbitro ficou todo contente e Jorge Gomes também.
Na segunda-feira de tarde passou por uma ourivesaria, comprou um relógio de ouro que
custou 200 contos e foi ter com Reinaldo já no final da tarde.
-Então, correu tudo bem ontem? - perguntou Reinaldo.
-Às mil maravilhas. Mas não dei a pasta aos homens.
-O quê? Não deste a pasta aos árbitros? Porquê?
-Tem calma, não te irrites. Aquilo foi simples de mais. O árbitro quase não teve de fazer
nada para dar a vitória aos gajos. No final fui jantar com os árbitros e disse-lhes para eles
passarem por cá hoje e que tu lhes darás uma prenda.
-E o que é que lhes vou dar?
-Já tratei de tudo. Fui comprar um relógio de ouro. Está aqui. É bonito, não é? Custou
200 contos, e agora guardas o resto. Não te preocupes, que ele vai ficar todo contente. Eu já
me apercebi disso ontem.
Quando o árbitro entrou no bar, Reinaldo não estava nada à vontade. Mas, quando lhe
ofereceu o relógio de ouro e viu o árbitro de olhos esbugalhados, começou a ficar mais
calmo. O Jorge Gomes afinal tinha razão. Ele ficou todo contente.
-Isto é para você não se atrasar na corrida para internacional - disse Reinaldo ao árbitro
em questão.
-Obrigado, amigo, e já sabe que pode contar comigo todos os segundos - agradeceu o
homem que se sentava no outro lado da mesa, já agarrado a uma miúda que era a novidade
da noite.
Mais adiante, Reinaldo pôde finalmente falar a sós com Jorge Gomes.
-Mas que grande negócio, este!
-Das oitocentas broas ficamos com seiscentinhos sem trabalho nenhum, e ainda por cima
o presidente telefonou-me ao princípio da tarde a agradecer-me. Mas que grande negócio!
Jorge Gomes tinha mostrado eficiência, e a partir daquele momento já não se colocava a
hipótese de ele poder vir a ficar de fora de novos negócios.
-Tens começar a trabalhar comigo. Deixa lá isso do jornalismo, que eu vou falar com o
presidente e vamos arranjar-te um lugar.
Jorge Gomes, que tinha ficado com 150 contos do bolo, aceitou logo o convite, e
passados alguns dias já estava ao serviço do clube de Reinaldo e a colaborar directamente
com Pinto da Costa, que entretanto tinha tido conhecimento dos predicados do rapaz. O
negócio estava montado e era necessário dar um melhor andamento à situação. O presidente
que tinha dado os 800 contos passou a ir mais vezes ao bar e a ter mais encontros com
Reinaldo.
-Você é um tipo porreirinho. Quando quisermos mais um favorzito voltamos a falar
consigo, doutor. OK?
-O que quiser. Vocês já sabem que faço isto desinteressadamente. Estou sempre
disposto a ajudar os meus amigos.
Discrição é coisa que não existe no seio dos dirigentes de futebol, e Reinaldo sabia muito
bem disso. Por isso, a notícia correu em rastilho rápido e depressa se ficou a saber que quem
quisesse uns favores no mundo da arbitragem só tinha de falar com o Reinaldo.
-Ele é um espectáculo. Conhece toda a gente.
O bar do Reinaldo começou a ser mais frequentado por dirigentes do nosso futebol. O
volume de negócios aumentou e os pedidos não se fizeram esperar. Jorge Gomes estava
dentro de todo o sistema, e os dirigentes já falavam também com ele. Parecia um mundo de
apostas clandestinas, mas era evidente a desorganização do sistema. Não havia, no entanto,
grande problemas, porque tudo era feito num círculo muito restrito.
Reinaldo Teles estava a apalpar terreno, não sabendo muito bem até onde podia ir e
com que árbitros podia negociar à vontade. Alguns deles, principalmente árbitros da capital,
passaram, entretanto, a frequentar o seu bar nas deslocações que faziam ao Norte. Um
deles, durante uma daquelas visitas de cortesia em dia de aniversário, pediu mesmo a
Reinaldo que meses mais tarde fosse padrinho da sua filha que iria nascer. Começava a ficar
tudo controlado. As noites de orgia sucediam-se nos fins-de-semana mais quentes, e o
negócio prosperava.
-Isto é o que eu sempre disse. Ninguém resiste às mulheres e ao dinheiro - filosofava
Reinaldo, do alto do seu banco do bar, mexendo os cubos de gelo e deitando um olhar de
paxá ao seu harém, então em plena laboração, quer na pista quer nos locais menos
iluminados do bar.
Luísa Teles, por sua vez, também estava entusiasmada com o negócio. Era dinheiro que
entrava, sem impostos, e ela sabia como escolher as melhores mulheres para os árbitros,
deixando-os agarrados a grandes momentos de felicidade. Reinaldo Teles estava a tornar-se
num expert em arbitragem e nos seus negócios marginais. E acabou por cimentar a sua fama
quando, em vésperas de um jogo internacional no qual o seu clube participava, lhe coube,
como sempre, a missão de proporcionar à equipa da arbitragem momentos de grande prazer.
O trio de arbitragem para esse jogo era escocês, e esse foi um pormenor que passou a
Reinaldo, que estava longe de pensar que o facto de os homens usarem sais pudesse
transformar a sua virilidade. Por isso, preparou para os visitantes três miúdas de estalo, com
a particularidade de uma delas se assumir como especialista na «tripla», fazendo também
cenas lésbicas.
Quando lhes apresentaram três bonitas raparigas, os fiscais de linha ficaram de olhos em
bico e começaram logo a babar-se, mas o árbitro fez má cara e mostrou a intenção de se
retirar. Reinaldo foi chamado à pressa para resolver aquela situação e, em menos de 20
minutos, foi a uma discoteca sua conhecida, trouxe um barman de bom porte atlético e ar de
machão latino. Com bigode descaído nos cantos, cabelo liso e tez morena e com um gosto
muito especial em comer machos, a presa cumpriu na perfeição os desejos do caçador
escocês.
O episódio foi muito comentado, e Reinaldo esteve duas horas a receber telefonemas de
parabéns. No seu gabinete, com a gata ao colo, Pinto da Costa sorria e pensava para os seus
botões:
-É deste tipo de pessoas que eu gosto. Capazes de resolver as mais intrincadas situações
e no mais curto espaço de tempo.
Era a afirmação em absoluto de Reinaldo Teles no mundo da arbitragem.
O bar de Reinaldo começou a ser ponto de encontro para aqueles que queriam usufruir
dos favores da arbitragem. Dirigentes e árbitros encontravam-se assiduamente no local, mas
nunca tinham um contacto directo, uma situação que foi sempre muito bem controlada, para
que não houvesse fugas de informação, tanto em relação a favores como aos preços
estipulados.
Lentamente, foi criada uma bem organizada rede de corrupção na arbitragem gerida, por
cima, por Reinaldo Teles, contando este com um assistente directo: Jorge Gomes. Os árbitros
das mais variadas regiões, logo que pisavam o chão da cidade, iam de imediato ao encontro
de Reinaldo. Não pediam nada, e muito menos ofereciam qualquer tipo de favor;
aguardavam antes, pacientemente, por uma abordagem. No início, estabeleceu-se uma certa
confusão promíscua no negócio, e esta situação não era a mais aconselhável. As pessoas
começavam a falar de mais, pois já nada passava despercebido, e Reinaldo Teles teve de
reorganizar o negócio, colocando as cartas na mesa de Pinto da Costa.
-Eles parecem moscas a cair no meu bar. A coisa já está a dar muita bronca.
-Que coisa?
-Aquele negócio dos árbitros. Começou a insinuar-se que eu era capaz de resolver tudo,
e os gajos não me largam. São os dirigentes de um lado e os árbitros do outro. Nunca pensei
que esta situação pudesse atingir este nível. Uns só querem vitórias; e os outros, dinheiro...
-Deixa lá. Ao menos, fica toda a gente satisfeita. Esse negócio tem de começar a se
gerido de uma forma mais segura. Isso vai dar muito dinheiro, mas é necessário saber fazer
as coisas. Roma e Pavia não se fizeram num dia.
Estava dado o mote para o arranque de uma organização mais capaz e eficiente, e o
plano foi colocado em marcha. Havia receptividade de parte, a parte e isso já era um bom
avanço. O tempo em que o clube gastava dinheiro para controlar algumas arbitragens já
tinha passado. Os árbitros sabiam exactamente onde estava o poder e como se chegar a ele,
e, se, em paralelo, se podia ganhar dinheiro, muito melhor.
Pinto da Costa estava consciente de que todos o temiam. Não tinha o mínimo de
pruridos quando queria esmagar um inimigo. Não fazia ameaças, mas os que se mostrassem
contra o seu poder podiam ter a certeza de que obteriam uma resposta de acordo com a
situação e sem qualquer tipo de contemplações. Perante tal quadro, era muito mais
proveitoso estar ligado a Reinaldo Teles. Para além do dinheiro que podiam ganhar, tinham
toda a cobertura possível dentro do Conselho de Arbitragem, área onde Pinto da Costa e os
seus pares se moviam com bastante à-vontade, contando com a colaboração de um
presidente da sua inteira confiança. Pinto da Costa gostava de evidenciar de uma forma
discreta esse poder. Era uma forma de fazer saber que quem mandava era ele. Quem
estivesse sob a sua protecção tinha as melhores nomeações e as melhores classificações. E
protegia quem se aliasse a ele, incentivando a aproximação dos mais indecisos.
PC queria uma organização perfeita e o controlo absoluto sobre todas as situações. Mas
os jornalistas eram indiscretos e perigosos para o negócio. Não era muito saudável que se
levantassem muitas suspeitas, e esse sector tinha também de começar a ser muito bem
controlado. Pinto da Costa sabia insinuar-se e cativar. Quando lhe convinha, promovia
encontros com directores de jornais e, de uma forma desinteressada, começava a gabar-lhes
os feitos e o trabalho. Incentivados pela guerra estabelecida pela concorrência e sabendo que
quem obtivesse maior número de informações junto dos grandes clubes era quem mais
vendia, ninguém se negava a esses encontros. Era impossível, porém, controlar toda a gente
e, através de algumas acções de intimidação, estabeleceu-se um clima de medo para os que
teimavam em mostrar-se independentes.
Normalmente às quartas-feiras, o presidente reunia-se com os jagunços e indicava-lhes
qual o jornalista que tinha de ser encostado e insultado. Nos dias dos jogos, os contratados
passeavam livremente pelo camarote da Imprensa e, através de insultos e ameaças,
exerciam uma tremenda pressão sobre alguns jornalistas. A intenção era clara: promover o
medo e o consequente silêncio. Durante a semana, quem tivesse o atrevimento de não
analisar uma situação conforme lhes convinha podia ter a certeza que tinha à sua espera na
primeira oportunidade alguém com o seu jornal na mão a ameaçar que o fazia engolir aquele
pedaço de papel.
Pinto da Costa era mestre na política da divisão, e ao longo dos tempos foi criando
divisões entre os jornalistas, porque tinha consciência do perigo que representavam quando
todos se resolvessem unir e impor os seus direitos. A organização era-lhe favorável, e ele
sabia como jogar todos os seus trunfos. Um negócios implantado no seio da arbitragem era
exactamente aquilo que lhe faltava. A Olivedesportos e a agência de viagens «Cosmos»
estavam a facturar como nunca. Tinha conseguido vários exclusivos que lhe permitiam
efectuar o mais variado tipo de operações, sobrefacturando sem medo de poder ser
contestado. Tinha o presidente federativo na mão, e até nem foi muito difícil conseguir isso.
Dava-lhe gozo colocar os da capital a trabalhar para a sua organização. Um cartão de crédito
sem limite e umas viagens oferecidas ao casal que comandava as operações federativas
bastaram para que pudesse facturar alguns milhões. Pinto da Costa estava adiantado em
relação a todos os outros. Já há muito que tinha entendido que o futebol era a indústria que
mais rendia em 90 minutos.
Mas PC não era infalível. Também cometia os seus erros. Quando, através do, agora,
grande amigo e sócio camuflado, Joaquim Oliveira, ofereceu um cartão de crédito sem limite
ao federativo e à sua mulher, nunca lhe passou pela cabeça que a mulher deste, numa das
viagens da nossa selecção, se lembrasse de utilizar o respectivo cartão em compras pessoais,
gastando quase dois mil contos. O cartão foi de imediato cancelado. Numa viagem a
Liechtenstein, principado onde o clube de PC foi disputar um jogo particular, um emigrante
português, que se dedicava à pintura de automóveis e também fazia uma perninha como
empresário de jogadores de futebol, conseguiu criar uma grande amizade com PC e Reinaldo.
O indivíduo tinha boa pinta e falava várias línguas. Era inteligente e mostrou-se conhecedor
do ramo. E como era necessário preencher a vaga de Luciano D´Onofrio, a solução estava
mesmo ali à mão. José Veiga tinha todos os predicados para entrar na organização e, num
ápice, apareceu em Portugal como sócio de Joaquim Oliveira. Grande jogadores começaram a
passar pela sua mão. Ganhou prestígio, mas a sua ligação aos Oliveira limitava a sua acção.
PC estabeleceu então uma nova estratégia:
-O José Veiga tem-se mostrado competente e capaz. Tem-nos dado muito dinheiro a
ganhar, mas está na hora de se desfazer a sociedade.
Joaquim Oliveira não entendeu onde o presidente queria chegar e não hesitou em
perguntar:
-Mas não estou a entender. Se ele nos está a dar bom dinheiro, porque é que vamos
desfazer a sociedade?
PC tinha acordado mal-disposto e, ainda por cima, a sua gata, logo pela manhã, tinhalhe
derramado leite sobre as calças. Olhando a nódoa mal disfarçada junto à carcela, explicou
o seu plano:
-Se desligarmos o José Veiga da nossa organização, simulando um desentendimento, ele
fica mais livre para poder trabalhar com outros clubes, nomeadamente com os nossos
maiores adversários. Com esta acção, para além dos lucros que daí podemos retirar, ficamos
com a possibilidade de minar os nossos adversários por dentro. Ficamos com o campo livre
para lhes vendermos jogadores com rótulo dourado, mas fora de prazo, e também podemos
vender os seus melhores jogadores para clubes estrangeiros, criando, assim, focos de
instabilidade ao mesmo tempo que se lhes diminui a força.
Joaquim Oliveira nem queria acreditar no que ouvia. Aquele homem era de facto um
manancial de inteligência. Dois dias depois, estava desfeita a sociedade e, tal como fora
previsto, José Veiga tornou-se num dos empresários mais conceituados da nossa praça.
Mas a completa organização do sector da arbitragem, era o negócio que agora fazia
perder mais tempo a PC. Reinaldo Teles tinha descoberto o ovo de Colombo e revelado jeito
para controlar a situação.
Com um tiro podia matar com facilidade dois coelhos. O seu clube não tinha dinheiro
para andar a gastar em arbitragens, e a sua política nunca foi a de gastar, mas sim a de
cobrar. Toda a gente sabia que ele não era homem endinheirado, e alguns dos que, nos
primeiros anos, ainda ajudaram o clube quando se tornou necessário, agora fugiam a essa
situação, porque se sentiam traídos com os negócios efectuados por PC. Era a velha filosofia
de que era possível enganar toda a gente durante muito tempo, mas não sempre. Como
gostava de dizer, «não corre mais o que caminha, mas sim o que mais imagina». Por isso,
tornava-se necessário pensar sempre em novas estratégias.
Quem emprestava dinheiro queria garantias, e o clube ia ficando hipotecado a essas
situações, perdendo algum património sem que ninguém levantasse a voz para travar esse
tipo de situações. Pinto da Costa sentia-se inatingível. Estava acima do poder e até o
desafiava, sem ser punido por isso. Tinha a força do seu clube por trás. As vitórias, os golos e
as alegrias. Tudo era feito em nome do futebol.
Pinto da Costa sabia que tinha muitos inimigos, e não podia falhar dentro do relvado. O
controlo sobre árbitros era a solução que mais garantias dava para que se continuasse a
somar títulos, e Reinaldo Teles tinha a solução na mão, sem gastar dinheiro com isso, muito
pelo contrário, ganhando milhares. Reinaldo limitou-se a deixar germinar o negócio. Não era
necessário movimentar-se. As pessoas vinham ter com ele para estabelecer o primeiro
contacto. Já não se negociava com prendas, mas com dinheiro vivo. Foi mesmo estabelecida
uma tabela, mas Jorge Gomes não estava muito de acordo.
-Isso das tabelas não tem jeito nenhum. Os jogos têm de valer pela importância que
têm. -
És capaz de ter razão, mas aqui no bar está a dar muita barraca. Temos de falar como
presidente.
Pinto da Costa já se tinha apercebido da situação e também não andava muito satisfeito
com a exposição pública. Havia que evitar um devassa que, de dia para dia, se tornava mais
fácil de empreender, principalmente da parte dos inimigos do costume. Ele mesmo era cliente
assíduo do bar e não queria ser visto no local na companhia de árbitros e muito menos
envolver-se directamente no negócio.
-Vamos «lavar» a imagem que está a passar lá para fora. Esta situação tem que ser
alterada. Muito embora utilizes o teu bar para o primeiro contacto, combinas depois os
encontros para o restaurante do teu primo. O local é mais decente, menos visto, e não é tão
frequentado por gente do futebol. E sempre tem ao lado um bom jardim que dará sempre
para meditar um bocadito...
-Também acho que essa é a posição mais acertada. Vamos mudar isto, e já - concordou
Reinaldo.
Com uma organização mais eficiente, Reinaldo Teles elaborou uma carteira de árbitros
seleccionados por preços, acessibilidade, categoria e forma de actuar. O prémio de cada favor
era estabelecido conforme a importância do jogo, e de início, Reinaldo cobrava apenas um
terço do estabelecido, mas, mais tarde, quando verificou que os seus favores eram cada vez
mais requisitados, passou a cobrar 50 por cento.
Ninguém discutia preços nem duvidava do empenhamento de Reinaldo Teles, que
sempre que lhe era possível marcava a presença no jogo onde estabelecera o seu melhor
negócio.
Mas o volume de pedidos cresceu tanto, que Jorge Gomes começou a ser mais
requisitado, entrando no negócio a todo o vapor. Enquanto Reinaldo assumia os seus
compromissos e as suas responsabilidades no negócio, Jorge Gomes estava mais virado para
o lucro fácil. Fazia-se intermediário, cobrava a respectiva verba e nem sempre os árbitros
viam a fracção combinada, o que dava origem a alguns protestos rapidamente silenciados
com as ameaças do costume.
Jorge Gomes foi mais longe. Com a ambição de ganhar tudo, a maior parte das vezes
nem sequer falava com os árbitros e esperava simplesmente que os resultados fossem
favoráveis para ficar com a respectiva verba. O negócio até era muito mais rentável na 2ª
Divisão. Os jogos eram menos vistos, os árbitros estavam menos expostos e toda a gente
queria subir. Foi num negócio entre duas equipas de 2ª Divisão que Jorge Gomes foi pela
primeira vez desmascarado nas suas vigarices.O árbitro era alentejano, mas tinha um
compadre no Porto, proprietário de um restaurante. O lugar era típico e até se cantava lá o
fado. Um representante de um dos clubes foi falar com o dono desse restaurante, levando
uma proposta em carteira.
-Sabemos que és compadre do João Cravo, e ele vem apitar, no domingo. Não podemos
perder. Tens de nos ajudar.
-Está bem, eu falo com o homem.
-Quanto é que achas que lhe podemos dar?
-Mil contitos, mas 200 são para mim.
-Tudo combinado. Trata do negócio.
Passados poucos dias, o mesmo elemento desse clube surgiu no restaurante do
compadre de João Cravo para lhe dizer:
-Não trates de nada, porque o meu vice e o meu presidente foram falar com o Reinaldo
Teles, e ele garantiu que tratava do assunto todo. Para tratar disso, já ficou lá com dois mil
contos.
-Mas eu resolvia isso com mil.
-Oh, pá, nem me quero meter nessa merda! Mandaram-me falar contigo e foram ao bar
do gajo e ele sacou-lhes dois mil contos. Fiquei bera com isso e obriguei-os a prometeremme
que os teus 200 contos estão garantidos.
-Tudo bem, não há problema. O Reinaldo que me telefone que eu trato do encontro. O
homem vem de véspera e janta no meu restaurante.
Na véspera do tal jantar, Jorge Gomes telefonou ao dono do restaurante e combinou o
encontro com o árbitro. Quando este chegou, foi logo posto ao corrente do que se estava a
passar e esperou até quase de madrugada por Jorge Gomes. Como esta não aparecia,
acabaram por desistir, embora mantendo a esperança de que ele telefonasse. Mas até à hora
do jogo... nem um telefonema nem uma palavra.
O clube que entregou os dois mil contos a Reinaldo ganhou, mas sem qualquer
interferência do árbitro. No final, de regresso ao restaurante do seu compadre, o árbitro
voltou a falar no assunto.
-O Jorge Gomes não me ligou nem disse nada.
-São uns filhos da puta. Ficaram com os dois mil contos e nem sequer se dignaram a
falar comigo. Esses gajos são burros como portas. Andam a dar dinheiro a esses chulos.
De facto, os dois mil contos ficaram na posse da organização de Reinaldo, sem que este
tivesse o mínimo trabalho ou interferência no desenrolara do jogo. E o dono do restaurante
nunca mais viu os tais 200 contos.
Jorge Gomes sabia jogar com a situação e tinha consciência de que, como não se podia
falar abertamente destes negócios, dificilmente se descobriria este tipo de vigarice.
Uma outra vez, no final de um jogo em que o árbitro foi um internacional nortenho, o
presidente do clube que venceu acompanhou, no final da partida, esse árbitro ao seu
automóvel e pelo caminho disse-lhe abertamente:
-O Jorge Gomes já falou consigo?
-Comigo? Não. Porquê?
-Eu dei-lhes três mil contos para si e ele garantiu-me que já lhos tinha dado.
De súbito, começou a chover e, no momento em que o presidente desse clube saltava
um charco de água e abria o guarda-chuva para abrigar o árbitro, ambos verificaram que
Jorge Gomes, embrulhado numa gabardina, se dirigia a eles.
O árbitro não hesitou, e mesmo ali agarrou-o pelos colarinhos, enquanto lhe dizia:
-Ó meu filho da puta, andas a governar-te à minha custa!
-Tem calma, eu vinha agora trazer-te o dinheiro.
O presidente resolveu então intervir, para evitar que aquilo se transformasse num
escândalo.
-Tenham calma. Vamos resolver isso civilizadamente. Você ainda me disse ontem que já
tinha dado os três mil contos a este homem.
-É que ainda não tive oportunidade de o encontrar.
-Tem aí o dinheiro? - perguntou o presidente.
- Não.
-Então avise o Reinaldo Teles que amanhã vou ao bar dele e se não me devolverem os
três mil contos, armo um escândalo que nem vos passa pela cabeça.
Foram muitos os casos como este. Jorge Gomes estava a comprometer o negócio com as
suas vigarices, mas o certo é que Reinaldo lhe aparava todos os golpes, e PC começou a
desconfiar que eles estavam feitos, muito embora não revelasse o facto para não perder a
confiança de Reinaldo, muito menos agora, que ele lhe tinha apresentado a Maria. Uma
rapariga por quem se estava a apaixonar e para a qual até arranjou um emprego no clube.
Semanalmente, eram muitos os milhares de contos que se movimentavam em negócios
com os árbitros. Reinaldo Teles e Jorge Gomes já evidenciavam sinais exteriores de riqueza.
Os negócios eram realizados em dinheiro vivo, mas, quando isso não acontecia, também não
havia problema para controlar a situação e não deixar vestígios. Reinaldo recebia os cheques,
trocava-os no casino, levantava dinheiro na troca de fichas e entregava em cash aos árbitros.
Não deixava qualquer tipo de vestígio.
No entanto, esta situação levou-o a viciar-se no jogo. Com alguns montes de fichas na
mão, começou a não resistir à tentação de arriscar algum na roleta e perdeu muitas centenas
de contos, desde logo. Jorge Gomes não gostou da situação e por diversas vezes tentou fazer
com que o seu amigo deixasse o jogo.
-Não gastes dinheiro nessa merda. Não vês que ninguém ganha, e quando ganha, no dia
seguinte deixa-se o dobro.
-Deixa lá. Isto dá-me gozo, e o dinheiro é dos camelos. Eu controlo a situação, - Posto
isto, apostou tudo o que tinha no preto. E ganhou.
-O que é que eu te dizia, Jorge?...
Pinto da Costa e Reinaldo Teles tinham encontrado nos escalões inferiores as suas
melhores fontes de receita nas negociatas directamente relacionadas com processos de
corrupção da arbitragem. O nível dos dirigentes era mais baixo, e a vaidade dos
endinheirados empresários que procuravam o futebol para evidenciarem a sua posição social
estava a ser soberbamente explorada.
Pinto da Costa esfregava as mãos.
-Como é fácil ganhar dinheiro no futebol. Quando assumi a presidência do clube, nunca
imaginei poder chegar a esta situação e ganhar tanto dinheiro.
-Mas, desta vez, veja lá se tem mais cuidado com os investimentos que faz. Siga o meu
exemplo; gasto algum no jogo, mas estou sempre bem de vida - juntava Reinaldo Teles,
sempre prudente.
-Isso não é de admirar. O teu negócio dá sempre. Agora estás a ver-me a gerir uma casa
de putas? Toda a gente me caía em cima.
-Não é bem assim. Vejam o meu exemplo. Não é segredo para ninguém que sempre vivi
à custa da prostituição. Sim, porque não tenho as gajas para andarem a fazer cócegas aos
clientes e eu não ganhar nenhum. Ninguém vai ao meu bar beber um copo porque o whisky
de lá é muito bom ou a música óptima.
-Nisso tens razão. A maior parte do whisky que lá vendes até está marado! Só mesmo as
gajas é que são boas. Por falar nisso, já há muito tempo que não me apresentas uma
novidade.
-E a Maria?
-Adoro aquela gaja. Pelo menos agora tenho-a junto a mim mais tempo e sem ninguém
desconfiar de nada. Mas isso não quer dizer que não vá provando uma daquelas novidades
que vão aparecendo.
-Estou à espera aí de umas gajas novas que vêm da Rússia e hei-de arranjar-lhe alguma
coisa. Mas, voltando à conversa anterior, não concordo muito consigo quando me diz que ter
um bar de alternos é mau e que não dá prestígio. Você é testemunha de que esses gajos
todos não me largam e estão fartos de dizer que sou um tipo porreiro. Até me querem fazer
uma festa de homenagem. Não vê, nas viagens ao estrangeiro que fazemos com o clube, as
mulheres deles a juntarem-se à minha sem qualquer tipo de preconceito. Toda a gente sabe
que é a minha mulher que gere as putas, que lida com elas todos os dias e, sabe uma coisa,
mulheres dos nossos vices e de alguns dos acompanhantes que habitualmente nos seguem,
fizeram-se grandes amigas dela e algumas até puxam conversa para saberem como é o
ambiente no bar. Isto é um mundo de hipocrisia, e o que é necessário é saber viver nele.
-Então eu não sei disso!? Eu levo muitas vezes a tua mulher aos jantares que os clubes
estrangeiros nos oferecem, enquanto tu ficas com os jogadores.
-Bem, mas aí eles não conhecem a Luísa. E ela até tem boa pinta.
Pinto da Costa ouviu o telefone tocar, levantou-se do maple onde estava sentado e foi
atendê-lo na sua secretária.
-Tudo bem, obrigado.
Após uma curta pausa para ouvir o seu interlocutor, PC puxou uma folha de papel e
escreveu um nome.
-Já sabia que ele nos ia nomear esse árbitro. Fui eu que lho pedi pessoalmente. Sabe, o
jogo é importante e não podemos arriscar... OK! Até logo e obrigado. Era o Adriano Pinto -
disse PC.
-Ele está a ajudar-nos bastante.
-Que remédio ele tem. Se não fosse assim, tirava-lhe o tapete.
-Mas ele ajudou-nos bastante no início e pode ajudar-nos ainda mais.
-Sei perfeitamente que tenho aprendido muito com ele. No início, foi o Adriano que me
abriu os olhos e me ensinou que caminhos devia percorrer para ganhar os títulos que
ganhámos. Mas agora quem manda no futebol sou eu. A força está do nosso lado, e se ele
não fizer o que mandamos, não tenhas dúvida que lhe tiro o tapete, e ele sabe disso.
Reinaldo Teles lembrou-se do quanto Adriano Pinto era importante em toda a estratégia
estabelecida. Só a sua amizade já era bom para o negócio que começou a ser montado.
Pinto da Costa tinha uma visão extraordinária em relação ao futuro e começou a urdir a
sua organização. Reinaldo Teles e Jorge Gomes continuavam a dar todo o apoio nos negócios
com os árbitros, apostando na ajuda a clubes de escalões inferiores. Com esta acção, iam
ganhando algumas centenas de contos semanalmente e tinham cada vez mais os árbitros na
mão, não sendo necessário, por isso, gastar nem um tostão quando esses árbitros viessem
apitar o seu clube.
Entrava-se num ciclo vicioso. Os árbitros ficavam de tal forma hipotecados a Reinaldo
Teles que, quando fossem nomeados para os jogos com o seu clube, não tinham força moral
para o trair e nem sequer era necessário comprá-los. Mas nem tudo corria da melhor forma,
e Reinaldo teve consciência de que não dominava o sector conforme julgava, quando, por
diversas vezes, saiu derrotado em acções por ele desenvolvidas.
Em 1992, na última jornada do campeonato da 2ª Divisão, Reinaldo Teles foi contactado
no seu bar por um clube que tinha hipóteses de subir de escalão e que ia jogar com outro
que se não ganhasse seria despromovido. O negócio ficou acertado, comprometendo-se
Reinaldo a entregar ao árbitro três mil contos, garantindo outro tanto para si. O árbitro era
da capital e, depois de contactado num dos grandes hotéis da cidade por Jorge Gomes e
Reinaldo, comprometeu-se a fazer o frete e a ir receber a verba combinada no domingo à
noite ao restaurante do primo de Reinaldo.
O clube protegido por Reinaldo era o visitante, e ao intervalo já estava a ganhar por 3-0
com uma arbitragem verdadeiramente escandalosa. A ameaça de invasão de campo estava
iminente, mas nem isso assustou o árbitro da partida. Mas, perante tal situação, o presidente
do clube visitado, sabendo que o negócio tinha sido feito por Reinaldo e conhecendo o
montante da verba combinada, no interregno da partida entrou na cabina do árbitro e, com o
descaramento que provinha do desespero, fez directamente a sua proposta ao árbitro e
fiscais de linha.
-Sabemos que Reinaldo Teles vos ofereceu três mil contos e vocês podem sair daqui
mortos.
Retirando uma pequena pasta de debaixo do braço, puxou de um grande maço de notas,
colocou-o em cima da mesa que estava na cabina do árbitro e apostou forte quando disse:
-Estão aqui cinco mil contos e queremos ganhar. A vossa protecção está garantida.
Saiu da cabina do árbitro e esperou pacientemente pelos últimos 45 minutos. O
inevitável acabou por acontecer: o árbitro deu de tal forma a volta á situação, que o jogo
terminou com um resultado de 4-3.
Reinaldo Teles tinha sido derrotado na sua estratégia e prometeu vingança ao árbitro. O
certo é que esse árbitro abandonou o ofício mesmo antes de atingir o limite de idade.
Reinaldo Teles sabia que tinha de ser duro na sua acção para não perder o controlo da
situação, e Pinto da Costa avisou-o muitas vezes.
-É necessário ser duro e inflexível.
Ambos se recordavam bem de um caso passado uns anos antes com um árbitro
alentejano que foi apanhado com a «boca na botija».
Desde que tinha sido promovido ao primeiro escalão, Francisco Silva revelou uma grande
ambição pelo dinheiro, aceitando negociar sempre que possível com Reinaldo Teles. Mas
depressa verificou que era ele quem dava a cara e sofria a consequência dos escândalos a
que ficava obrigado.
Reinaldo ganhava tanto como ele e, por vezes, até mais. Este árbitro tinha falado várias
vezes com os presidentes dos clubes que favorecia, e eles acabavam por confessar quanto
tinham dado a Reinaldo ou a Jorge Gomes. Achou que aquilo era uma exploração e resolveu
actuar por conta própria.
Pinto da Costa teve conhecimento da situação e avisou Reinaldo Teles do perigo que
aquela atitude constituía.
-Vamos tratar da saúde desse gajo, para que não haja mais fugas. Quando souberes de
um contacto directo, avisa-me que eu trato do resto.
Reinaldo Teles assentou com a cabeça em sinal de concordância e saiu do gabinete do
presidente a pensar na forma como deveria actuar.
Jorge Gomes estava à espera dele e, depois de discutirem o assunto, não teve
contemplações.
-Vamos fodê-lo. Mandamos dar-lhe uma tareia, para ver se ele aprende.
Reinaldo não respondeu logo, e passados alguns segundos acabou por dizer:
-Dar-lhe uma tareia não é solução. O presidente garantiu que tinha outra estratégia. Só
temos de estar atentos e avisá-lo quando soubermos de algum negócio directo.
A oportunidade não tardou a chegar. Francisco Silva pedia que nem um cego, e a
informação tão desejada acabou por chegar.
-O presidente do Conselho de Arbitragem (Lourenço Pinto) era da total confiança de
Pinto da Costa e deu-lhe a informação tão esperada.
-Temos o homem na mão. Ele telefonou ao Rocha (Manuel Rocha, presidente do
Penafiel) e pediu-lhe dois mil contos pelo jogo de domingo. Vamos fazer-lhe uma
emboscada.O Rocha leva um gravador quando lhe for entregar o dinheiro, e depois entramos
nós em acção.
-Sigam com a operação, mas lembrem-se que temos de ficar sempre de fora.
Quando se viu desmascarado, o Silva chorou, pediu perdão, mas não adiantou nada.
Tinha sido feito. Houve ainda algumas hesitações não sabendo bem se devia levar o assunto
para a frente ou apenas pregar um tremendo susto ao Silva, mas o escândalo rebentou e não
foi possível segurar a situação.
PC e Reinaldo mais uma vez saíam ilibados do problema gerado, assumindo o papel de
anjinhos, mas a força que detinham foi bem evidenciada. Para os outros árbitros, o aviso
surgia sempre na forma de um «lembrem-se do que aconteceu ao Silva, que fugiu à nossa
protecção, quis fazer os seus negócios sozinho e acabou por se espalhar; mais vale ganhar
menos mas estar devidamente protegido».
O sistema voltava a estar sob controlo, e a submissão da maior parte dos árbitros a
Reinaldo era cada vez mais forte. Ele sabia que não podia perder aquele negócio. A árvore
continuou a dar os seus frutos, mesmo fora de época.
O restaurante do seu primo transformou-se num autêntico estabelecimento cambial, tal
era o volume de negócios que ali se desenvolvia. Os cheque voavam de mesa para mesa,
desaparecendo debaixo dos pratos de feijoada.
José Silveira, um árbitro transmontano com algumas dificuldades na vida, devido aos
maus negócios que tinha efectuado na sua empresa, necessitou, entretanto, de comprar uma
carrinha Passat e falou com Reinaldo para lhe emprestar três mil contos para efectuar o
negócio. Reinaldo levou-o ao presidente, e este não hesitou em passar-lhe o respectivo
cheque para a compra da carrinha, mas exigiu ao árbitro que este lhe passasse um outro
cheque da mesma importância, mas com um prazo mais alongado. Ambos concordaram, e o
árbitro levou os três mil contos.
Quando Reinaldo regressou ao gabinete do presidente, perguntou, um tanto espantado:
-Não é um risco muito grande emprestar dinheiro a este gajo?
-Claro que é sempre um risco, mas não vamos ficar sem esse dinheiro. Isso foi apenas
um investimento. Nós vamos precisar dele.
Passadas poucas semanas, o clube de Pinto da Costa lutava pelo título com o seu
principal rival (perigosamente próximo, nessa temporada), e havia uma deslocação difícil
mais a norte do País. PC chamou Reinaldo e explicou-lhe a situação:
-No domingo, vamos jogar o título. Temos de ganhar, de qualquer maneira, e as coisas
não estão nada fáceis. Chegou a altura de pedir contas ao teu amigo árbitro de Trás-os-
Montes.
Reinaldo entendeu logo o que o seu presidente queria; pegou no telefone e discou o
número do árbitro.
Do lado de lá atendeu uma voz grossa e bem timbrada que Reinaldo identificou de
imediato:
-Olá, estás bom?
-Quem fala?
-É o Reinaldo. O presidente mandou-me falar-te, porque precisa daquele dinheiro que te
emprestou.
-Mas agora não tenho essa verba...
-Mas tu prometeste!!!
-Claro que prometi, mas as coisas correram mal.
-Sabes que o presidente tem um cheque?
-Sei. E o que é que ele vai fazer?
-Nada, se tu te portares bem.
-Olha que porra. Até parece que ando a portar-me mal.
-Não é isso. Vais ser nomeado para fazer o nosso jogo de domingo e nós temos de
ganhar de qualquer maneira. Não interessa como, temos é de ganhar.
-Já sabes que comigo não há problema. Diz ao presidente que pode contar comigo. Mas
vê lá se me toca alguma coisa.
-Deixa isso comigo. Faz a tua parte, que nós depois cá nos entendemos.
No dia desse jogo, o árbitro transmontano passou pela maior vergonha para dar a vitória
ao clube de PC, inventando um penalti que nunca existiu, com a agravante de tudo isto se
passar em casa do adversário, situação que lhe originou uma penosa fuga pelas traseiras.
Mas ele já estava muito batido nestas «saídas à comandante», assim baptizadas porque
normalmente aconteciam no jeep do comandante da GNR.
Os jornais, a rádio e a televisão comentaram o escândalo, mas o título foi assegurado.
Dias depois, o árbitro transmontano, que de bruto só tinha o aspecto físico, foi em busca
do cheque dos três mil contos que tinha passado a Pinto da Costa, mas este nem sequer o
recebeu, mandando recado por Reinaldo:
-O presidente disse que aquele dinheiro nada tinha a ver com o empréstimo que te fez.
São negócios diferentes. Nós fizemos-te um favor e tu retribuíste com outro.
-Mas já viste o que passei no domingo para não ganhar nada com isso?
-Tem calma que vais recuperar esse dinheiro. Eu disse-te que não havia problemas, não
disse? E vais ver que não há.
-Como é que então vais resolver essa situação?
-É fácil. Vou arranjar-te uns joguinhos e clientes para te pagarem o frete. Nós ficamos
com o dinheiro e abatemos à dívida.
-Isso não é justo - disse o árbitro, ao mesmo tempo que dava um murro na mesa.
-Não te enerves, porque a situação não é tão injusta como tu julgas. Já sabes que
connosco podes ganhar muito dinheiro e vais até superar com toda a certeza essa merda dos
três mil contos. Deixa isso connosco, que nós arranjamos-te jogos para cobrir isso e muito
mais. De facto não faltaram jogos a José Silveira. Reinaldo não se cansava de lhe arranjar
nomeações e pedir os respectivos fretes, mas a devolução do cheque é que nunca foi
efectuada, tendo sido utilizado várias vezes para exercer sobre o árbitro o vais variado tipo
de chantagem.
Os escândalos foram-se avolumando, e o árbitro transmontano ficou de tal modo
hipotecado à situação que mais tarde teve de fugir para o estrangeiro para evitar a prisão.
Algures no golfo Pérsico, onde tentava montar um negócios de camelos, o pobre árbitro
transmontano dizia mal da sua vida:
-Grandes cabrões, servem-se de uma pessoa e quando ela já não é necessária lançamna
pela borda fora. Mas eles não vão perder pela demora!
José Silveira era apenas um exemplo de como alguns árbitros estavam agarrados a
Reinaldo Teles e eram obrigados a executar todos os seus planos, muito embora, no meio de
toda esta estratégia, surgissem algumas falhas no sistema. O certo é que os árbitros que
mais dinheiro ganhavam com os negócios de Reinaldo Teles eram aqueles que apareciam
mais vezes a apitar os jogos do seu clube, sendo-lhes exigidos favores à troca de nada.
Quanto mais egoísta era o árbitro e mais gastador se mostrava, mais hipotecado ficava.
Quando queriam montar negócios ou necessitavam de dinheiro para cobrir algumas despesas
da sua vida particular, telefonavam a Reinaldo Teles, e este, salvo raras excepções, nunca se
fazia rogado na execução dos empréstimos, mantendo sempre em sua posse alguns
documentos comprovativos.
Reinaldo Teles sabia bem avaliar a potencialidade dos empréstimos e quanto essa verba
lhe iria render. Presos pelas dívidas, os árbitros em causa tinham de se submeter às ordens
emanadas por Reinaldo ou Jorge Gomes, uma figura que, aos poucos, se foi transformando
no braço direito do seu dilecto amigo. Os empréstimos eram abatidos mediante os jogos
efectuados, mas a verba descontada na dívida era sempre muito inferior à que Reinaldo
cobrava aos respectivos dirigentes que com ele contactavam.
Alguns árbitros estavam fartos de ser explorados e começaram a surgir algumas fugas.
Contactados pelos clubes adversários dos protegidos de Reinaldo, traíam os objectivos e
colocavam-se do lado contrário, para dessa forma levaram algum dinheiro. A organização era
rígida e não perdoava tais veleidades. Reinaldo estava fora de si e, descontrolado, até
insultava os árbitros em público.
-És um ingrato, mas vou tratar-te da saúde. Este ano já te dei a ganhar mais de 10 mil
contos e tu traíste-me. ` Tás fodido comigo.
O árbitro, tentando arranjar desculpa para disfarçar o negócio que tinha feito, ainda
ripostou:
-Não podia fazer mais do que aquilo que fiz, senão era um escândalo.
-Era um escândalo, o caralho!!! Não viste, há três jornadas atrás, o que fez o Chico?. Foi
preciso marcar três penaltis para ganharem, e ele marcou-os. Aconteceu-lhe alguma coisa?
Claro que não. Ele está sob a nossa protecção.
-Ó Reinaldo, desculpa lá, não me fales dessa merda de desonestidades nem de
ingratidões! Para eu ter ganho mais de 10 mil contos, tu ganhaste o dobro ou mais. Eu
também estou fodido contigo, porque no jogo que fiz anteriormente ajudei o clube que me
pediste e não vi nem um tostão. Não me venhas, por isso, com a conversa de que ele te
pregaram o mico. Eu soube que eles te deram o dinheiro, e eu não ando aqui a fazer fretes
de graça, ou para ganhares só tu.
-Está bem, está bem. Vais ver o que te vai acontecer!
E aconteceu mesmo: esse árbitro, que tinha subido ao primeiro escalão no ano anterior,
acabou por ser novamente despromovido.
Reinaldo não perdeu a oportunidade para lançar o aviso sobre os outros:
-Estão a ver o que acontece a quem nos tenta foder e não quer colaborar connosco?
Abram os olhos, comigo é que ganham dinheiro!

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28/09/06

A TALUDA DE MOSCOVO

Um Sporting afortunadíssimo conseguiu sair de Moscovo com um importante ponto, depois de um jogo em que foi quase sempre inferior ao seu adversário.
A equipa russa entrou a toda a velocidade marcando logo aos quatro minutos e, aproveitando o desnorte leonino, continuou a carregar no acelerador até final da primeira parte, durante a qual o expectro da goleada chegou a pairar no ar.
No segundo tempo os surpreendentes russos, com um vigor físico notável, continuaram à procura do segundo golo e foram criando ocasiões de golo em série, que Ricardo ou a ineficácia dos seus avançados impediram de concretizar e assim matar a partida.
Na única situação de perigo construída pelos leões, Nani marcou contra a corrente do jogo. Nesse momento o empate era uma completa mentira em face do desenrolar dos acontecimentos. A partir daí o Spartak sentiu o golo e o Sporting equilibrou o jogo.
Com as substituições operadas na equipa moscovita, os últimos minutos voltaram a revelar um Spartak rápido e perigoso, que até final manteve o Sporting encolhido.
O empate acaba por ser um excelente resultado para os leões, dadas as circunstâncias do jogo.
Em termos individuais o destaque terá de ser dado a Ricardo e Nani, absolutamente decisivos no meio de uma equipa que andou perfeitamente à deriva durante largos períodos do encontro.

27/09/06

SAHADICOS !

Por mais voltas que se dê ao texto, por mais boa ou má vontade que se tenha, por mais ou menos minúcia na análise, há um facto objectivo que não podemos escamotear e que constitui pano de fundo ao resultado de ontem: o Manchester United é melhor equipa que o Benfica.
Partindo desta premissa, atendendo aos orçamentos dos dois clubes e à sua história mais recente, não podemos deixar de considerar a derrota tangencial do Benfica como um resultado absolutamente normal – o jogo do passado ano é que constituiu uma surpresa -, pelo que não há que o dramatizar.
Todavia, este mesmo princípio axiomático conduz-nos a uma outra conclusão: o Benfica - grande em Portugal, mas de dimensão futebolística mediana a nivel internacional - não tem capacidade para jogar de igual para igual com este tipo de adversários, e a única forma de os vencer é assumindo humildemente essa limitação.
Quando Fernando Santos, no início da pré-época, disse à comunicação social que queria uma equipa dominadora e que desse espectáculo, como benfiquista torci o nariz. Há muito que deixei de acreditar em equipas dominadoras e espectaculares, com muita posse de bola e permanentemente instaladas no meio campo contrário, que o futebol de outros tempos - na sua idade da inocência - amplamente proporcionava. Estou em crer que hoje, à luz do futebol actual, uma equipa competitiva, ganhadora e eficaz só poderá ser simultaneamente "dominadora" caso disponha de intérpretes muito melhores que o adversário – como em termos internacionais será o caso, por exemplo, do Barcelona. De resto, o último Mundial deu-nos uma resposta cabal a esta questão, empurrando precocemente para casa justamente aqueles que apresentaram uma tipologia futebolística mais “dominadora”.
No futebol moderno existe um grande equilíbrio, sobretudo a nível físico, e o que acontece frequentemente quando uma equipa se instala no meio campo adversário – sobretudo se este se tratar de um conjunto de topo - é deparar com uma linha defensiva impenetrável, capaz de varrer o jogo aéreo e não permitir quaisquer espaços para a criação de lances de perigo. Pior do que isso, quem aborda o jogo dessa forma, abre necessariamente espaço nas suas costas que avançados rápidos, tecnicistas e eficazes não desdenharão aproveitar.
O futebol moderno está transformado num jogo de sombras, e quem pretende vencer deve ter a inteligência suficiente para o perceber e utilizar em seu proveito. Não é eventualmente o futebol que os adeptos gostariam que fosse mas é o que existe, e não se vislumbra, por agora, que possa evoluir noutro sentido. O Benfica na época passada ganhou ao Liverpool e a este mesmo Manchester jogando de forma calculista, esperando pelo adversário e pelo espaço atrás das suas costas para tentar criar perigo. Se fizermos uma resenha sobre as principais jogadas dos encarnados nos jogos mais determinantes da Liga dos Campeões de 2005-2006, verificamos que partiram, ou de lances de contra-ataque ou de bola parada, justamente as armas que uma equipa como a do Benfica tem condições de utilizar frente a adversários reconhecidamente superiores. Quando se dispõe do jogo aéreo de Luisão na defesa, e da velocidade e técnica de Simão e Nuno Gomes (particularmente talhados para o contra-ataque) na frente, e se defronta uma equipa britânica, não há como fugir a essa estratégia.
Terá sido este o pecado original do Benfica na noite de ontem.
Ao jogar “de peito feito” contra uma das equipas candidatas a vencer a prova, fazendo uma pressão alta muito intensa, detendo a posse da bola e instalando-se freneticamente no meio campo do adversário, o Benfica ficou condenado a sofrer um golo em contra-ataque, conforme veio a suceder. O empate não era no meu ponto de vista um mau resultado, pelo que um golo como o de Saha, num lance de contra-pé com ambos os laterais subidos, e em situação de igualdade numérica na rectaguarda, só se aceitaria se o Benfica se encontrasse nesse momento em desvantagem no marcador.
O Benfica - com dois extremos bem abertos nas alas, Petit como pivot defensivo, Katsouranis uns metros à sua frente e Karagounis com mais liberdade criativa - praticou na maior parte do tempo de jogo (até ao golo) um futebol alegre e honesto, os jogadores trabalharam muitíssimo, correram, lutaram, remataram, mas a sensação que fica é que, com um Manchester empenhado sobretudo em segurar o nulo, uma abordagem mais calculista ao jogo poderia ter rendido, pelo menos, um ponto aos encarnados da Luz. E é com pontos que se passa à segunda fase.
Os ingleses apresentaram um 4-3-3 muito pronunciado, com Scholes a fechar na esquerda o trio de que faziam parte Carrick e O’Shea (este por vezes ligeiramente mais recuado). Na frente Ronaldo pela direita e Rooney pela esquerda faziam linha com o avançado-centro Saha.
A verdade é que a equipa de Alex Ferguson deu desde muito cedo mostras de não estar disposto a arriscar muito, fechando a sua linha de meio campo e deixando a Ronaldo toda a responsabilidade no transporte de jogo para o meio campo contrário. A consequência prática disto foi uma equipa encolhida, com um ou outro pontual rasgo ofensivo, mas sem assustar muito a defensiva benfiquista.
Depois do golo, obtido num desses rasgos em contra-ataque, o Manchester impulsionado pela maior inspiração de Cristiano Ronaldo – firmemente empenhado em vingar o sucedido em Dezembro passado -, tomou então definitivamente o controlo do jogo (sem nunca o dominar), chegando bem mais perto do 0-2 do que de permitir uma igualdade na qual, sejamos sinceros, poucos dos quase sessenta mil presentes ainda acreditariam após o pontapé de Saha.
Em termos de futuro nada está perdido, e se atentarmos aos resultados da pretérita temporada verificamos que o Benfica também perdeu um jogo em casa (0-1 com o Villarreal), e não ganhou nenhum fora, obtendo ainda assim o apuramento. Conforme tenho defendido, serão os jogos com o Celtic a definir a passagem, sabendo-se agora que o Benfica terá, nesses dois jogos, de fazer um mínimo de quatro pontos caso queira continuar a sonhar (o ideal seria mesmo ganhar em Glasgow). Se assim não suceder restará lutar pela continuação na Taça Uefa, para a qual bastará, em princípio, vencer o Copenhaga em casa.
Nota final para o ambiente na Luz, que embora não tenha esgotado (ficaram uns cinco mil lugares por preencher), proporcionou um caloroso apoio à equipa, sobretudo até ao golo.
Dentro de três semanas prossegue a competição. Pode ser que até lá o Benfica estabilize, sobretudo sob o ponto de vista mental, e consiga dar um passo decisivo rumo aos oitavos-de-final.

FOTOS: www.marvermelho.blogspot.com ; www.slbenfica.pt ; www.record.pt

ANÁLISE INDIVIDUAL

QUIM (4) Uma bola que lhe bateu no joelho após remate de Ronaldo, e permitiu a única oportunidade do United em toda a primeira parte, parecia ser sintoma de algum nervosismo. Errado. De aí em diante Quim realizou uma exibição quase perfeita, que teve o seu momento alto quando, perto do final, evitou em três corajosas intervenções no mesmo lance o segundo golo inglês, possibilitando assim mais alguns minutos de esperança. No golo de Saha não teve qualquer culpa.
ALCIDES (3) Não comprometeu em termos defensivos (salvo um percalço sem consequências), e procurou internar-se no processo ofensivo (talvez em demasia ?) durante os primeiros 45 minutos. Na segunda parte foi dos que mais sentiu o golo, acabando intranquilo e pouco esclarecido, quando mais se necessitava de cabeça fria. Ainda assim nota positiva.
LUISÃO (3) O Manchester jogou de forma bastante cautelosa o que não lhe proporcionou o brilhantismo com que costuma vestir as suas exibições europeias onde normalmente é chamado a intenso trabalho. Tentou remar contra a maré que submergiu o conjunto encarnado na ponta final do encontro, mas não esteve muito feliz no passe.
ANDERSON (2) Está na pior forma que lhe vimos desde que chegou a Portugal. O modo cínico com que os ingleses abordaram o jogo não o colocou à prova durante largo período. Quando teve mais para fazer fracassou, sendo sua a maior responsabilidade no lance do golo em que estendeu uma passadeira para Saha rematar tranquilamente. Melhores dias virão.
LÉO (3) Está longe do fulgor da temporada passada, notando-se bastante, por exemplo, a maior dificuldade que tem em recuperar das acções ofensivas em que tanto gosta de participar. Nota positiva pelo facto de ter sido dos que melhor resistiu à hecatombe mental que constituiu o golo dos ingleses, terminando a partida como um dos mais esclarecidos de toda a equipa.
PETIT (4) Ao contrário do que se supunha surgiu alguns metros atrás de Katsouranis. Juntou ao voluntarismo habitual bastante critério na entrega da bola a curta e a longa distância, que constituiu uma das bases para a afirmativa primeira parte benfiquista. Pelo tempo fora manteve-se em bom nível. Não foi feliz no remate.
KATSOURANIS (4) Dono de um vigor físico impressionante chega a parecer ter o dom da ubiquidade tal a forma como antecipa as movimentações dos colegas do sector defensivo e lhes faz a devida cobertura. Esteve em grande evidência durante todo o jogo, começando como médio de transição e acabando a central após a saída de Anderson, saindo-se muitíssimo bem nas funções desempenhadas. Uma grande exibição do grego, o melhor benfiquista ontem no relvado da Luz. Está a crescer de jogo para jogo, provando agora, de forma bastante pronunciada, o seu valor.
KARAGOUNIS (4) Realizou uma excelente primeira parte, lutando muito e demonstrando capacidade de pautar o jogo ofensivo da equipa, enquanto servia também de tampão às saídas do Manchester logo desde a primeira fase de construção. Na segunda parte caiu um pouco de produção, sendo substituído imediatamente após o golo, “resistindo” assim ao pior período do Benfica. Não foi pelos desempenhos individuais que o Benfica perdeu o jogo.
PAULO JORGE (3) Tem tanto de velocidade e voluntarismo como de algum atabalhoamento de ideias, quando por vezes se exige esclarecimento. Começou muito bem, mas aquilo que prometia acabou por, a pouco e pouco, dar lugar a alguma falta de argumentos de modo a solucionar os lances que se lhe foram deparando. Pode melhorar, quando adquirir maior experiência ao mais alto nível.
NUNO GOMES (3) Realizou, como quase toda a equipa, uma excelente primeira parte fazendo o trabalho que dele se esperava, arrastando centrais, tabelando com as penetrações dos médios e abrindo alguns espaços na zona de remate. Teve nos pés a melhor oportunidade da equipa em todo o jogo mas Vandersar correspondeu ao seu bom remate. Na segunda parte eclipsou-se, e quando o Benfica optou por um jogo mais directo afogou-se por completo entre os centrais britânicos.
SIMÃO (2) Podia ser ele uma das chaves para o golo, mas a verdade é que o capitão esteve francamente infeliz. Nota-se que está muito longe do seu melhor, e a estratégia utilizada pelo Manchester (e pelo Benfica…) não favoreceu o estilo de futebol em que se sente mais confortável: em velocidade e com espaço. Nem de bola parada conseguiu criar perigo, atirando por cima da barra na melhor oportunidade de que dispôs.
NUNO ASSIS (3) Entrou de forma ingrata, justamente no minuto do golo do Manchester. Ainda assim, instalando-se preferencialmente no flanco direito, procurou dar vivacidade ao jogo de ataque da equipa, construindo um ou outro lance que se perdeu nos pés dos colegas.
MICCOLI (1) Não está bem fisicamente e isso notou-se. Não trouxe nada de novo à equipa.
MANTORRAS (1) Podia ter ficado na história do jogo caso tivesse acertado com a cabeça na bola na sequência de um ressalto na área britânica, pouco depois deter entrado em campo. Ficou-se por aí. Olhando para a exibição do angolano, o que mais intriga é porque motivo terá ficado Kikin Fonseca de fora do lote dos convocados.

ARBITRO: Perdoou dois ou três cartões aos ingleses, mas não se pode dizer que o Benfica tenha perdido por causa da arbitragem.

VEDETA DO JOGO

CRISTIANO RONALDO: Na época passada saíra da Luz pela porta dos fundos após um jogo muito pouco conseguido e o desnorte resultante da constante e ensurdecedora assobiadela com que foi brindado sempre que tocava na bola. Este ano parece ter decidido vingar-se, e sabendo resistir às vaias, foi capaz de, sobretudo na segunda parte, espalhar pelo relvado todo o perfume da sua enorme classe, realizando uma exibição de altíssimo nível. Foi dele o primoroso passe a desmarcar Saha para o golo, e por mais duas ou três ocasiões semeou o pânico junto da área benfiquista. No final da partida seria certamente a mais feliz de todas as pessoas que ontem estiveram no estádio.

26/09/06

E PLURIBUS UNUM

25/09/06

A ANTEVISÃO DE UM CLÁSSICO

Faz em Dezembro um ano, o Benfica eliminava de forma tão surpreendente como brilhante o super Manchester United da Liga dos Campeões no jogo de vida ou morte que fechava a fase de grupos. Nesse dia só a vitória interessava, e foi com golos de Beto e Geovanni, respondendo ao tento madrugador de Paul Scholes, que o Benfica escreveu uma bonita página da sua história recente.
Passados pouco mais de nove meses, as duas equipas encontram-se novamente no mesmo palco.
Agora como então, o Benfica debate-se com um mar de dúvidas na constituição da sua equipa – na altura faltaram Simão, Manuel Fernandes, Miccoli e Karagounis, desta vez Rui Costa e Nuno Assis parecem fora de combate (Miccoli e Ricardo Rocha estão também ainda limitados). Agora como então, a equipa da Luz vem de uma série de resultados pouco animadores e vê nesta partida a hipótese de deitar a crise para trás das costas.
Que esperar então deste jogo?
Em primeiro lugar é necessário os benfiquistas entenderem que a vitória do ano passado, embora merecida, não corresponde a uma superioridade sobre a equipa britânica. Bastará comparar os dois orçamentos para tirar todas as dúvidas a este respeito. O Manchester é superior ao Benfica em todos os aspectos, e só com uma enorme superação dos benfiquistas e um dia menos bom dos pupilos de Alex Ferguson o resultado final nos pode sorrir. Foi isso que aconteceu naquela noite.
Na época transacta a situação classificativa fazia com que o empate eliminasse o Benfica. Este ano estamos na segunda jornada e um empate frente a um conjunto de top da poderosa Premier League, que engloba nas suas fileiras estrelas como Ronaldo, Scholes, Rooney, Ferdinand e companhia, não é de desprezar, e deve ser entendido como um bom resultado.
É com esta premissa que os jogadores devem entrar em campo, e é com ela também que os sócios e adeptos, que seguramente voltarão a encher a Luz, devem abordar o jogo.
O Benfica está a atravessar uma crise de resultados e de confiança própria de quem em tão pouco tempo tanta coisa mudou e de uma conturbada pré-época cheia de indefinições e equívocos dos quais o menos responsável será Fernando Santos - como sempre defendi, só lá para Outubro o Benfica terá condições para potenciar a indesmentível qualidade dos seus jogadores, quase todos experientes internacionais. Tem nesta jornada europeia a oportunidade ideal para afastar o peso da crise de cima das suas costas.
Por sua vez o Manchester, depois de um início de época arrasador parece agora oscilar ligeiramente, algo que certamente quererá rectificar já amanhã. Talvez também para eles o empate não seja mau de todo, sabendo-se no entanto a aversão, até mesmo cultural, que os ingleses têm em jogar para o nulo. Depois há também que contar com a sede de vingança que alguns jogadores sentirão assim que pisarem o relvado da Luz, de onde no ano passado saíram de ajoelhados perante uma eliminação de todo inesperada.

Em termos tácticos, Alex Ferguson apontaria neste jogo teoricamente para uma solução de 4-3-3, ou 4-4-2 disfarçado com Ronaldo a fazer de segundo ponta-de-lança atrás de Wayne Rooney - trata-se de um encontro fora de portas a exigir alguns cuidados. Todavia, olhando para a última partida dos “Red Devils” no terreno do Reading, foi quando Saha entrou em campo e Ronaldo se deslocou para a ala, que a equipa se libertou e conseguiu evitar a derrota.
Ainda assim, inclino-me mais para que o técnico escocês insista na primeira fórmula, segundo a qual o Manchester entraria então com o seguinte onze: Vandersar, Neville, Ferdinand, Brown, Heinze, Carrick, Scholes, Fletcher, Richardson, Ronaldo e Rooney.
Neste registo, Scholes surge frequentemente quase de perfil para com Ronaldo, fechando os alas Fletcher e Richardson para uma linha de três juntamente com Carrick (ou O’Shea).
Na opção por dois pontas-de-lança – que mesmo não sendo inicial surgirá de certo ao longo do jogo caso o Manchester não se venha a colocar em vantagem – o modelo do Manchester “britaniza-se” com o recuo de Scholes para o lado de Carrick, e os alas bem abertos (Ronaldo e Fletcher) no serviço aos dois pontas-de-lança. Para o Benfica talvez esta fórmula se tornasse mais simpática (permite muito mais espaço para lançar contra-ataques), motivo pelo qual não creio que Ferguson a vá utilizar de início.
Partindo então do primeiro sistema (uma espécie de 4-3-2-1), que antídoto poderá encontrar o Benfica para contrariar esta poderosa equipa, e conseguir o primeiro e mais importante objectivo da jornada, ou seja, evitar a derrota ?
Tendo em conta as limitações físicas de Rui Costa, Nuno Assis e Ricardo Rocha, num jogo extremamente exigente do ponto de vista do choque (e ainda agravado pela chuva), penso ser prudente recorrer a outros elementos.
Eu inicialmente optaria por um onze assim constituído: Quim, Alcides, Luisão, Anderson, Léo, Katsouranis, Petit, Karagounis, Paulo Jorge, Nuno Gomes e Simão.
Uma outra alternativa, mais conservadora e menos do agrado das bancadas, seria a inclusão de Beto no lugar de Paulo Jorge, libertando Karagounis , e apostando na velocidade de Simão e Nuno Gomes para as situações de contra-ataque.
No primeiro caso, dada a ausência de Rui Costa, e de acordo com as conclusões que se têm extraído dos últimos jogos, a equipa apresentaria um triângulo de meio-campo com um vértice defensivo (Katsouranis) e dois interiores (Karagounis pela direita e Petit pela esquerda). Nuno Gomes poderia recuar muitas vezes e com esse movimento arrastar centrais e permitir as entradas de Simão ou Paulo Jorge (pelo que se viu em Paços em grande forma física). Miccoli, ainda longe da sua melhor condição ficaria guardado para o caso de o desenrolar do jogo justificar a sua presença.
Segundo aquilo que tenho seguido do Manchester, parece-me que a equipa anda extraordinariamente dependente de Cristiano Ronaldo. A sua anulação (conforme aconteceu no ano passado) poderá ser a chave do jogo. Se ele surgir mais pelo centro do terreno, Petit poderia ter aqui uma oportunidade de brilhar, não sendo também despiciendo o raçudo jogador acompanhar as movimentações de Scholes, deixando para Katsouranis a cobertura ao português. O problema pôr-se-á se ele aparecer mais sobre a esquerda, onde Alcides talvez não seja suficientemente rápido para o acompanhar, sobretudo se quem estiver à sua frente não ajudar.
Veremos se estes cenários se confirmam ou não.
Reafirmo que o empate é um bom resultado, e se tudo terminar como começou (0-0) sairei feliz do Estádio. Espero portanto não ouvir assobios se a equipa optar por trocar a bola de modo seguro, sem grandes aventureirismos ofensivos. No ano passado o Benfica sofreu um golo aos seis minutos, e a partir de aí o “Inferno da Luz” fez-se sentir, e de que maneira, de modo a empurrar a equipa para a recuperação. Ora aí está um bom exemplo de apoio à equipa, que deveria ser sempre seguido.
Os sócios e adeptos do Benfica não costumam falhar quando o seu apoio é fundamental, e será isso com certeza que vai acontecer amanhã. Depois da saga da época passada, as grandes noites europeias vão voltar à Luz, e com elas grandiosas jornadas de benfiquismo, de tensão dramática e, esperemos, também de glória.

24/09/06

CLASSIFICAÇÃO "REAL"

Os lances polémicos da Mata Real prenderam-se com aspectos disciplinares que, como se sabe, ficam de fora desta análise.
No Dragão não houve casos, se exceptuarmos dois golos bem anulados ao F.C.Porto.
Não tive oportunidade de ver o jogo das Aves. Apenas pude ver os golos que são limpos. Se se justificar voltarei ao tema.
Assim sendo, a classificação não sofre alterações:
F.C.PORTO 12
Sporting 10
Benfica 4 (- 1 jogo)

VEDETA DA JORNADA

ANDERSON: Não foi titular, é certo, mas foi isso mesmo que permitiu perceber de forma bem clara a influência que ele (já) tem na equipa do F.C.Porto. Entrou na segunda parte e tudo mudou.
Esta distinção estava já entalada há algumas semanas. Foi agora.
Ali há craque !

23/09/06

RESISTIR A TUDO, MENOS A SI PRÓPRIO

Perder dois pontos nos últimos segundos de jogo é sempre cruel. Se isso acontece depois de acertar duas vezes no poste, e numa altura em que os maiores obstáculos da partida pareciam ter sido ultrapassados, torna-se um golpe muito difícil de encaixar.
O Benfica não jogou mal – houve mesmo unidades em registo muito elevado – mas incorreu num erro estratégico que acabou por se tornar extraordinariamente penalizador. Uma equipa que vence e, a partir do momento em que a igualdade numérica foi reposta, apresenta todas as condições para controlar a partida, não pode jogar com a sofreguidão ofensiva que o Benfica apresentou nos últimos dez minutos. Não será politicamente correcto afirmá-lo mas desses dez minutos, com uma abordagem mais calculista, o Benfica podia ter reduzido o tempo útil de jogo para metade. Não o quis ou não o soube fazer. Pagou bem caro.
A equipa encarnada resistiu à chuva intensa, à lesão de Nuno Assis, à paupérrima arbitragem de Lucílio Baptista – que num jogo correctíssimo conseguiu mostrar uma dúzia de amarelos e dois vermelhos – acabando por ”morrer na praia” na sequência de uma reacção final pacense à qual não deu, no meu ponto de vista, a abordagem adequada, que passaria naturalmente por tentar trocar a bola, provocar contacto físico e consequentes faltas e fazer com que o tempo passasse tranquilamente. Ao invés, os jogadores do Benfica mal recebiam a bola de Quim lançavam-se num ataque desenfreado ou em passes longos votados ao fracasso, praticando assim um jogo directo que só se justificaria caso o resultado fosse nessa altura negativo.
Antes dessa ponta final o Benfica havia sido melhor, pelo menos enquanto esteve em igualdade numérica. Foi mais lutador, mais pressionante, com Katsouranis a realizar o seu melhor jogo de águia ao peito e Paulo Jorge muito irrequieto e, desta vez, mais consequente. No início da segunda parte Lucílio Baptista decidiu estragar o jogo com a patética expulsão de Léo, que para além de o desorientar a si próprio - não mais se encontrou, errando para ambos os lados mas sempre em abundância, como aliás lhe é comum acontecer -, teve também o condão de empurrar o Benfica para trás, alterando o rumo de um jogo que até aí, mesmo sem grandes oportunidades de golo, tinha um dono e senhor bem evidente. O Paços partiu então para o seu melhor período (apesar das duas expulsões serem verdadeiramente grotescas, foi o Benfica a jogar em inferioridade durante mais de vinte minutos), onde a espaços quase asfixiou o Benfica no seu meio-campo. Com a expulsão de Luiz Carlos, os equilíbrios foram repostos voltando o Benfica a mostrar sinal mais. Conforme disse acima, o jogo podia ter morrido aí, mas uma falha de Anderson (em muito má forma neste início de época) ditou o desfecho final que o Paços de Ferreira, por aquilo que fez na segunda parte, acabou por não desmerecer.
Há muito campeonato pela frente, pelo que não há por que fazer dramas. A Mata Real é um terreno extremamente difícil, estamos em vésperas dum importantíssimo jogo internacional, e o Benfica tem melhorado de jogo para jogo, mau grado alguns ajustes que Fernando Santos ainda terá que fazer. Mais do que aspectos técnico tácticos, há que incrementar uma mentalidade ganhadora que ainda não parece devidamente assimilada.
Em termos individuais as pontuações são as seguintes: Quim 4, Alcides 3, Luisão 4, Anderson 1, Léo 2, Katsouranis 4, Karagounis 3, Nuno Assis 2, Paulo Jorge 4, Miccoli 2, Simão 3, Miguelito 1, Manu 1 e Mantorras 1. O melhor benfiquista foi Katsouranis.

DRAGÕES NÃO VACILAM

Um F.C.Porto a aproximar-se paulatinamente da tipologia predilecta do seu treinador, venceu facilmente um Beira Mar demasiado dócil e subserviente.
Jogando em 4-3-3 bem vincado, com Quaresma mais encostado aos outros dois avançados e Lucho muito próximo de Jorginho, o F.C.Porto fez uma primeira parte cinzenta. No segundo tempo, as entradas de Anderson e Lisandro trouxeram sangue novo à equipa, vendo-se então também um Quaresma mais alegre. Os golos surgiram com naturalidade.
Jardel não se viu, mas a nota de realce foi mesmo a facilidade concedida pelos aveirenses, sobretudo na segunda parte, onde avulta o incrível segundo golo portista. Não foi um auto-golo como nas duas jornadas anteriores, mas não andou muito longe disso.
Temos pois, para já, um F.C.Porto bem lançado no comando da Liga.

22/09/06

GOLPE DE ESTÁDIO (3)

O «Jumbo» da «Lufthansa» voava a uma velocidade de cruzeiro próxima dos 900 km/h e
tinha vento pela popa. Lá em baixo, a extensa pradaria do Texas anunciava já o final da
viagem, algures no México, numa cidade chamada Saltillo, que seria onde a selecção iria
estagiar durante três semanas para os jogos da fase final do Campeonato do Mundo.
Espreitando pela escotilha da cauda, enquanto mexia com os dedos os cubos de gelo do
copo de whisky, Joaquim Oliveira sonhava com uma nova vida. Para trás queria que ficassem
os meses de muito trabalho, convencendo os patrões do futebol de que seria lucrativo
explorar a publicidade estática dos estádios. Tanto labutou que conseguiu convencer alguns,
bem como os responsáveis pela selecção nacional.
Aliás, este até foi o seu trabalho mais fácil, pois na Federação mandavam todos e não
mandava ninguém. O presidente (Silva Resende) até era uma figura com vocação
eclesiástica.
No jacto, os jogadores partiam para mais uma rodada de «sueca» e o
seleccionador(Torres) tentava dormir um pouco. Os jornalistas aproveitavam para pôr as
leituras em dia, e meia dúzia de viajantes tentava perceber o que se passava, de facto, no
interior do avião. Simplificando as coisas, era apenas mais uma equipa de futebol em viagem
pelo mundo. Esta tinha a singularidade de ser a equipa portuguesa. Apenas mais uma
equipa.
A chegada a Saltillo, após uma escala na capital mexicana, foi de arrepiar. Naquele
mundo novo de comancheros, um exército esperava a equipa. Homens de metralhadora
vigiavam o hotel da selecção, colocados em posições estratégicas, bem no centro de um
inóspito planalto.
-Vai ser pior que Alcatraz!- vaticinou o «capitão» de equipa(Bento), que ainda estava
longe de pensar o quanto estava iludido.
O hotel chamava-se «La Torre» e constava de uma grande torre onde se alojava a
recepção e o restaurante, rodeada por duas filas de apartamentos ao estilo duplex, que foi
onde ficaram os nossos jogadores e os jornalistas, cada grupo no seu bloco. O dono do hotel
era um mexicano branco e gordo, que desde logo apresentou a sua ainda mais anafada
esposa, ainda jovem, portanto, «com hipóteses de ser comestível lá para o fim da segunda
semana», como logo alguém referiu.
Faltavam mais de três semanas para o início da competição. Havia que iniciar a
adaptação à altitude das cidades onde os jogos iam decorrer. No fim da pradaria, junto à
encosta de um monte, um complexo desportivo novinho em folha estava à disposição da
equipa portuguesa. O relvado é que deixava um pouco a desejar. Enrolado num sarape, em
pose para o único repórter-fotográfico da comitiva, o seleccionador mais parecia um
guardador de rebanhos da pradaria do Norte do México, não fosse andar por ali um tal de
Joaquim Oliveira a comandar um grupo de trabalhadores locais. De martelo em punho, ele
dava o exemplo, pregando os primeiros painéis à volta do campo de treinos e berrando
constantemente com os seus contratados, todos eles muito próximo da indigência.
-Foda-se para os Mexicanos. Parecem alentejanos!
Os dias passaram depressa, primeiro. Havia que mostrar trabalho, uma equipa de futebol
só tem 11 lugares. Mas logo o tédio foi tomando de assalto os jogadores. E foi assim que
estes se lembraram que continuavam por negociar os prémios de participação e as
respectivas comparticipações nas receitas publicitárias angariadas. Como o presidente
continuava em Lisboa, falaram com o vice e com o treinador. Mas a resposta tardou, os dias
começaram a passar mais devagar e um dia a revolta aconteceu. Ou melhor, uma noite.
Depois do jantar - mais uma vez servido pelo diligente Evaristo, cozinheiro famoso que tinha
vindo de Portugal com a equipa -, os craques fecharam-se na sala do restaurante e
decidiram...fazer greve. O 25 de Abril já tinha sido á 11 anos, o País vivia ainda os resquícios
de PREC, mas, curiosamente, não aceitou muito bem a decisão dos jogadores, anunciada no
dia seguinte, na penthouse do hotel, tendo como fundo a imensa paisagem da pradaria
mexicana e a pequena cidade de Saltillo. Os telexes crepitaram, os telefones ficaram
impedidos, mas a notícia chegou depressa à nação - os craques queriam dinheiro, caso
contrário...
Joaquim Oliveira pensou que estava tudo perdido.
-Logo agora, que acabei que colocar o último painel! - desabafava para o seu irmão
António, que também se tinha integrado na comitiva. Este, conhecedor de muitas marés e
das manhas dos craques, desvalorizou a questão.
-Calma, Joaquim, isto ainda vai ao sítio - e dito isto reparou numa miúda que saía de um
jeep.
-Esta, garanto-vos que nem vai entrar aqui! - disse para um jornalista. Dito e feito.
António trocou duas palavras com a miúda à entrada do hotel e seguiu com ela para o
quarto.
-Este é craque em tudo - comentou o «mascote» da selecção, um velhinho fotógrafo de
Albergaria que todos tratavam por «Admirável». Aliás, «Admirável» viria a revelar-se como
uma peça fundamental nas negociações dos jogadores com os responsáveis da selecção,
montando também guarda quando os craques se fechavam nos seus muitos plenários.
Estava Portugal inteiro suspenso do desfecho desta novela quando o presidente da
Federação finalmente chegou. Mas a primeira coisas que fez foi ir à missa, o que deixou
alguns jogadores desconfiados, pois pensaram que estava tudo descoberto e que o homem
fora pedir perdão pelos muitos pecados cometidos no hotel «La Torre» desde que ali tinham
chegado os portugueses. É que aquela história da segurança era tudo balela. Os próprios
seguranças eram os primeiros a promover uma certa libertinagem, oferecendo todo o tipo de
chicas pela módica quantia de dez dólares. Mas não eram muito bons a organizar, pois não
raras vezes as chicas iam bater à porta dos jornalistas, e deles chegaram a aproveitar as
ofertas...
No Hotel «La Torre», como se comentava mais tarde, «até as carochinhas e os esquilos
marchavam». Após duas semanas de estágio, o pessoal feminino da limpeza já conhecia, por
exemplo, todas as pregas da barriga do Evaristo, que um dia de tão entusiasmado, até se
esqueceu de queimar o leite creme, o que ia originando outra revolta. As miúdas apareciam
de todos os lados e convites não faltavam. Por exemplo, numa das noites de folga, alguns
dos craques puderam mesmo viajar alguns quilómetros até a um rancho, onde se realizou um
barbecue que ficou conhecido apenas pela antepenúltima e penúltima letras.
Joaquim Oliveira não via a hora de tudo aquilo se resolver, mas o seu desespero ainda
estava longe de ter atingido o clímax. Que aconteceu depois da célebre noite em que o
presidente da Federação brindou um grupo de jornalistas portugueses e brasileiros com uma
sessão de anedotas picantes. Curiosamente, no dia seguinte estava praticamente tudo
resolvido e para quase todos, menos para Joaquim Oliveira. Nessa noite, um pé-de-vento
passou pelo campo de treinos e varreu os painéis publicitários ali colocados com tanto suor e
empenho.
-Que mais me irá acontecer? - chorava Joaquim Oliveira, longe de imaginar que aquela
tempestade era o início de uma carreira fulminante de empresário desportivo.
Depois da tempestade, veio a bonança. também podia ter vindo o Bonanza, que a
paisagem era a ideal e não faltavam ali pistoleiros. Os jogadores acalmaram-se com a
proximidade da competição, e um jornalista do «Libération», de rabinho de cavalo e caneta
em punho, ficou profundamente desolado quando encontrou a equipa portuguesa a trabalhar
no duro, embora sem resistir a umas tantas, e inevitáveis, escapadelas nocturnas. O defesa
esquerdo, entretanto, apaixonou-se pela mulher do dono do hotel, sendo visto a namorar
num banco de jardim ao lado da piscina. Entre os jornalistas, a rebaldaria era também geral,
com uns a tomarem o partido dos dirigentes e outros o partido dos jogadores. Até se dizia
que tinha sido um jornalista o redactor dos comunicados dos jogadores, para uns claramente
decalcados das folhas de combate do PCP. Esta controvérsia iria gerar, mais tarde, alguns
desaguisados.
E o Joaquim? A vida melhorava para o Joaquim. Acalmados os ventos e caladas as iras,
finalmente a sua publicidade era vista em Portugal. O Joaquim podia, enfim, ir à discoteca do
outro lado da rua. Talvez o seu irmão lhe apresentasse uma miúda.
Miúdas...
Para um jogador muito especial, elas eram quase tudo. Futre, vedeta em ascensão,
gostava muito delas mas também queria um lugar na equipa, fazendo tudo para o conseguir,
ao ponto de em plena recepção do hotel levar o seleccionador ao desespero.
-Tenho de jogar, e ponto final - dizia do alto dos seus 19 anos. Como se não obtivesse
certeza do facto, dedicava-se a outras actividades, ficando célebre uma longa espera da
equipa.
-Onde andará o Futre? - perguntavam, até que alguém topou a sua cabeleira. Nas
traseiras de uma pick-up de portas abertas, Futre era surpreendido na fase terminal da
jogada ofensiva a que todos chamavam «chupa-chupa». A miúda não gostou muito da
interrupção, e o Futre voltou a amuar.
-Ou isto, ou a titularidade! - ameaçou, mas já ninguém se importou com isso,
especialmente depois de ter sido confirmada a notícia de que um português ali residente
tinha sido apanhado a dormir com dois cameramen brasileiros...
Chegou o dia «D». Do outro lado, os ingleses eram claramente os favoritos. Do nosso
lado, já ninguém sabia o que estava a valer, pois o melhor que se tinha arranjado como
aferidor da forma da selecção tinha sido uma equipa de cozinheiros e estucadores. Girou a
bola e a equipa portuguesa conseguiu marcar um golo, que foi quanto bastou para a vitória.
Foi a festa. Embora ainda faltassem dois jogos para o fim do apuramento, a euforia instalouse
no Hotel La Torre e no dia seguinte houve festa. Na penthouse do hotel, os movimentos
revolucionários eram trocados por outro tipo de manobras ofensivas, mas estas tendo como
alvo jovens entre os 16 e os 25 anos. O sobe-e-desce durou quase toda a noite, ante o olhar
benevolente do seleccionador e de uns tantos jornalistas que o acompanhavam nos copos.
O clima era de completa descontracção depois de uma série de dias de tensão. A vitória
sobre a Inglaterra fez esquecer tudo o que estava para trás. Mas a seguir a esta vitória veio
uma derrota, com a Polónia, e tudo voltou à estaca zero. Tudo se ia decidir noutra cidade,
frente a uma selecção marroquina comandada por um brasileiro, que até mandou o recado
de que se Portugal quisesse empatar o jogo, era capaz de se arranjar, pois o resultado
também interessava à selecção que comandava. Passado o recado, um responsável da
selecção reagiu com um arrogante «nem pensar, vamos é golear os gajos».
No bar do hotel, pela noite dentro, o seleccionador falava assim com o seu adjunto:
-Estou com fé...
-Na Nossa Senhora de Fátima?
Não, pá, nos rapazes. Eles não podem perder, caso contrário são chacinados no
regresso.
-Olha que não sei. No fundo, já fizeram bastante. Chegaram aqui, ganharam aos
ingleses...
-...comeram gajas em série...
-E nós?...
-Parvos fomos, pá!
-No louco hotel de Guadalajara, os jogadores já se roíam de saudades das miúdas que
tinham conhecido em Saltillo. Crê-se mesmo que essa seria a sua maior motivação para
vencerem Marrocos, pois se tal acontecesse voltariam a jogar nas imediações de Saltillo. Mas
Portugal perdeu e por muitos. Oh desgraça!...
Joaquim Oliveira voltou a amuar, o irmão nem por isso (já estava cansado de «trabalhar
as miúdas»), e até o embaixador acabou molhado da cabeça aos pés quando entrou no
balneário da equipa portuguesa. Um dos craques, que tinha partido a perna depois do
primeiro jogo (Bento), chorava a um canto, e o presidente mantinha-se na tribuna de honra,
reunindo desde logo um grupo à volta e iniciando um discurso do tipo «eu bem dizia que
estes excessos revolucionários...», o que desde logo mereceu parangonas na imprensa
portuguesa do dia seguinte. Os heróis voltavam à sua condição de homens, melhor, de
vermes.
Por isso, o regresso a Portugal fez-se praticamente em silêncio. E as miúdas de Saltillo,
inconsoláveis, fizeram rezar missas pelo menos por o envio de uma carta. Um dos jogadores
disse mesmo: «Selecção, nunca mais, com esta gente». António Oliveira apreciou a atitude,
recordando os tempos em que se manteve coerentemente dissidente. Ver-se-ia mais tarde
que o jogador que António admirou também iria cumprir a sua promessa.
Onze anos depois, o Hotel La Torre continua no mesmo sítio. Um pouco mais degradado,
é verdade, com menos água na piscina, mas a paisagem continua a ser a mesma. Só a
mulher do Senhor La Torre já lá não mora, pois fugiu para Tijuana com um jogador de
póquer.
A «operação Saltillo» tinha sido um sucesso para a Olivedesportos e mais propriamente
para Joaquim Oliveira. Pinto da Costa estava atento a toda a situação e, numa altura em que
queria reorganizar todos os seus negócios na área do futebol, tornava-se imperioso abarcar
todas as áreas onde fosse fácil ganhar dinheiro. A Olivedesportos começou a estar no seus
horizontes, mas o ódio que os parentes Oliveira lhe tinham não tornava fácil a sua
aproximação. PC não podia perder tempo. Tinham estalado algumas broncas, só abafadas
pelo forte poder que o clube tinha a nível regional. Foram presas pessoas por tráfico de droga
cuja aproximação ao seu clube era mais que evidente. Um ex-jogador do seu clube(Mariano)
foi mesmo preso à porta do estádio com uma quantidade grande de cocaína. Estabeleciam-se
ligações a uma rede que estava sediada no centro do País. Os jornais começaram a falar no
assunto, e alguns jornalistas tiveram emboscadas à porta de sua casa para os fazer calar,
efeito que foi conseguido com muita cobertura de ordem jurídica. PC sentia-se bem apoiado,
mas também sabia que não podia abusar da situação. Foram momentos de muita pressão e
incerteza. Pinto da Costa funcionava um pouco como o capataz de uma grande quinta, e o
excesso de confiança levou-o a acções sobre as quais acabou por perder o controlo. Os
escândalos rebentavam, com alguns dos seus seguranças a exibirem armas de grande
calibre. Um presidente de um clube de Lisboa(Belenenses) jurou a mesmo a pés juntos que o
corpo de segurança de PC viajava com bazucas nos porta-bagagens, assunto que abriu um
telejornal, deixando PC algo embaraçado. «Vá lá, que foi o telejornal do canal dois»,
desabafou.
Pinto da Costa e o seu filho não davam um passo sem levarem consigo pelo menos dois
seguranças. Este tipo de situação não agradava à maior parte das pessoas que o rodeavam,
e algumas foram-se afastando. Não queriam ser conotadas com associações de criminosos,
sabendo-se que a maior parte desses seguranças eram marginais com extensos cadastros.
Foi o período em que Pinto da Costa assumiu com maior influência o papel de Al Capone à
portuguesa, consolidando uma organização que abrangia vários sectores.
Entretanto, Reinaldo Teles tinha feito seu assessor um jornalista sem o mínimo de
escrúpulos e que fora colocado à pressão nesta área de actividade por um amigo, também
ele escriba, mas com um cadastro de muitos anos de prisão, devido a actividades
relacionadas com assaltos, vigarices e conto do vigário. Fora a política que o colocara num
lugar de destaque, e ainda hoje não se sabe que tipo de registo criminal foi entregue no
Sindicato para lhe activarem a carteira.
O certo é que o Jorge Gomes, de apelido «Chapeiro», sem saber muito bem como,
deixou a sua oficina de automóveis para de dedicar ao jornalismo - e nem sequer se tratava
de uma questão de talento - aparecendo a assinar umas linhas.
-Gosto muito do jornalismo, mas não sei escrever uma linha - disse o Jorge ao Proença,
mas logo este lhe explicou o seu plano.
-Não tens de escrever nada. Isso depois vais aprendendo. O que interessa agora é que
tu entres. A agência não tem viatura própria para se fazerem os serviços, e eu compro um
carrinho em segunda mão, marco muitas viagens, trazes os recados, eu escrevo-os e
ganhamos o dinheiro dos quilómetros. Já sabes que como sou eu que assino as despesas,
podes meter sempre umas viagens a mais, e no fim do mês fazemos um balúrdio.
Este era o tipo de pessoa ideal para servir os desígnios de Reinaldo Teles, sempre pronto
para um negócio marginal. O Jorge Chapeiro(Gomes), como era conhecido na praça, levava
todos os recados de Reinaldo e PC para o seu órgão de informação e mais tarde teve direito
a um lugar de destaque no clube, aberto pelo seu amigo Reinaldo, que começava a não ter
rival à altura na estrutura directiva de Pinto da Costa, transformando-se rapidamente no
número dois de toda a organização. Mas antes de se retirar das lides jornalísticas, Jorge
Gomes foi autor de uma grande proeza que muito sensibilizou Pinto da Costa e o «Mister»
Octávio: «chapou» nos jornais, através de uma série de takes difundidos pela sua agência, o
exclusivo da expulsão de Fernando Gomes de um estágio que a equipa estava a realizar na
Madeira, facto que determinou a saída do craque do clube. No momento certo, o Jorge
divulgou a versão que interessava, e esse facto acabou por ser determinante na sua
contratação.
Reinaldo Teles, foi aos poucos, afastando todas as personagens ligadas ao clube que não
pactuavam com o seu estilo de vida e muito menos com a força que ele tinha em toda a
estrutura directiva. Para os substituir, Reinaldo levou para a sua direcção familiares e amigos,
colocando-os em pontos estratégicos, ao mesmo tempo que Pinto da Costa fazia tudo para o
promover e fazer esquecer que ao seu lado tinha um marginal, um elemento sem escrúpulos.
No novo modelo de organização, nada foi esquecido. Para cobrir alguns negócios ilícitos,
era necessário ter sempre à mão bons advogados. Na primeira escolha, PC não foi muito
feliz. Arranjou um causídico sem grande talento para a defesa, mas sem o mínimo de
escrúpulos. Era pau para toda a colher desde que sobrasse algum dinheiro para ele. Tinha
lata, era descarado, falava muito e dizia pouco. Mas, para organizar o seu braço jurídico,
vieram mais conselheiros cuja experiência em criminologia era muito vasta.
Nada era feito ao acaso.
Reinaldo Teles tratou do braço relacionado com a segurança, convidando para o efeito
um seu irmão. Joaquim Pinheiro passou a gerir os capangas. Já nada funcionava como antes.
Havia que se implantar uma maior segurança. Os tempos em que Pinto da Costa se reunia
com os capangas à quarta-feira para ordenar quem havia de ser silenciado já tinham
acabado. Assim, a casa começa a ser reconstruída e devidamente ordenada a partir das suas
fundações. Já nada se fazia ao acaso e, para alimentar os lucros, a Olivedesportos tinha de
passar para o seu domínio.
Pinto da Costa falou disso com Reinaldo Teles.
-Achas que vamos conseguir dar a volta aos Oliveiras e metermo-nos na Olivedesportos?
-Eles cresceram agora um pouco, mas o volume de negócios ainda é baixo. Ó presidente,
ninguém consegue fugir à tentação do dinheiro. Eles sabem que o presidente tem poder. É
quem manda no futebol, e se querem ganhar dinheiro, o melhor que têm a fazer é aliarem-se
a nós. Eles já verificaram que os da «mata» não dão nada a ninguém e perderam todo o
poder que tinham.
-Mas como é que nos vamos aproximar deles?
-Deixe isso comigo. Continuo a ser amigo dos dois. O António não está a treinar nenhum
clube, vou abordá-lo sobre essa situação e apalpo terreno em relação à Olivedesportos.
-É isso mesmo. Trate-me disso o mais breve possível.
Reinaldo Teles saiu todo emproado do gabinete do presidente e nessa mesma noite foi
procurar o Oliveira, encontrando-o num pub no interior de um shopping da cidade. Reinaldo
fez-se encontrado, falou de futebol e do êxito que a Olivedesportos tinha tido na operação do
«Mundial» do México.
-Vocês mereciam melhor sorte. Precisavam de ser ajudados por gente com poder no
futebol. Isso é um grande negócio se for bem gerido. O teu irmão tem jeito para esse tipo de
coisas.
António, que nunca foi estúpido, olhou de soslaio Reinaldo e compreendeu logo onde ele
queria chegar, mas deixou que este se aproximasse mais do assunto que o tinha levado ali.
Embalado pelas palavras, Reinaldo começou a falar do negócio que PC tinha montado
recentemente e dos lucros que tinha obtido.
-O homem começou a ver que as agências de viagem ganhavam um balúrdio com as
deslocações das equipas ao estrangeiro e resolveu montar um negócio desses por conta dele
(Cosmos). Convidou um gajo que sabe da poda e aquilo é uma mina. O tipo que ele convidou
era um dos dealers da maior agência da cidade e ficou famoso por vender viagens a Fátima à
saída da missa das nove. Agora, quem quiser ir no avião com os jogadores e ficar no mesmo
hotel, paga o dobro. Já viste quanto é que isso dá?
O António mandou vir mais dois whiskys, puxou de um cigarro, ofereceu outro a
Reinaldo e disse num tom desinteressado:
-Ele é que estava bom para se aliar a nós na Olivedesportos.
Reinaldo quase saltou do banco alto em que estava sentado, mas não denunciou a sua
alegria e, alinhando no jogo de palavras, respondeu:
-Bem... se quiseres, eu posso falar ao homem.
-Deixa-te de merdas, paga lá estes copos e marca encontro comigo e com ele.
Reinaldo desatou a rir, mas não perdeu a postura nem deu a entender que se tinha
encontrado com António precisamente com aquela intenção.
-És sempre a mesma merda. Ainda estou para ver quando és tu a pagar um copo. Deves
ser judeu.
No dia seguinte, Reinaldo contactou com António (Oliveira) e marcou encontro entre ele
e Pinto da Costa num hotel da cidade. Eram cinco da tarde quando se reuniram. Pinto da
Costa ia acompanhado de Reinaldo Teles, e António já lá estava sentado num maple, na
companhia de um copo.
PC nem sequer deu a entender que algum dia estivessem zangados. Começou a
conversar com António como se tivessem recuado ao tempo em que ele era apenas chefe de
departamento de futebol e o António jogador. Tudo o que se tinha passado depois,
simplesmente não existia.
Pinto da Costa foi o primeiro a falar:
-Está sem clube neste momento?
-Estou, mas também não estou preocupado com isso.
-Compreendo. A vosso empresa está a dar os primeiros passo, e pelos vistos está a ir
bem. Estava estabelecido o diálogo entre ambos, e Reinaldo Teles despediu-se, argumentando
como desculpa que tinha umas coisas a tratar.
Pinto da Costa sentou-se no maple ao lado de António e começaram a discutir o assunto
que os tinha juntado novamente.
-O seu irmão parece que tem lá uma rapariga a trabalhar que é um espectáculo em
publicidade. Teve sorte porque não há muita gente qualificada nesse sector.
-De facto, a Adélia é uma profissional impecável.
Discutiram depois alguns projectos em relação à empresa, mas não avançaram muito,
porque ainda havia um problema chamado Joaquim Oliveira.
O irmão do António tinha um ódio visceral a Pinto da Costa e estava longe de saber
daquele encontro. No entanto, PC nunca escondeu o jogo. Mostrou-se logo interessado em
participar na actividade da empresa, mas de uma forma discreta.
-O meu trabalho nunca poderá ser directo. A minha influência em todo o negócio será
feita nos bastidores e vocês só têm de seguir à risca as minhas instruções e vão ver que não
se vão dar arrepender.
-Nós estamos abertos a uma negociação e vamos avançar com esse projecto, mas o meu
irmão tem de ter uma parte muito activa em toda a organização.
-Com isso não há problema. Marque um encontro, e nós resolvemos tudo.
No dia seguinte, António telefonou para Lisboa e falou com o irmão. Marcou um encontro
no Porto no mesmo hotel e à mesma hora mas não lhe falou na conversa que tinha tido com
Pinto da Costa e muito menos que já se tinha encontrado com ele.
António confessou mesmo a um amigo:
-Se dissesse ao meu irmão que nos íamos encontrar com Pinto da Costa, tenho a certeza
que ele não aparecia. O melhor é não lhe dizer nada e esperar pela sua reacção. À hora
marcada, lá estavam, no mesmo hotel. Pinto da Costa e António Oliveira. O Joaquim entrou
acompanhado da Adélia, olhou para o bar e viu logo o seu irmão, mas PC estava de costas e,
quando se apercebeu da situação, ficou lívido de raiva, mas soube aguentar o choque. Para o
seu irmão estar acompanhado de tal personagem, devia estar a acontecer algo de muito
importante.
Defendendo-se, cumprimentou o irmão e esperou pelo que vinha a seguir.
Pinto da Costa levantou-se, cumprimentou-o e, a medo, Joaquim Oliveira lançou também a
sua mão para a frente.
Tentado quebrar o gelo, António disse:
-Vamos sentar-nos.
Adélia não sabia bem o que fazer, e Joaquim Oliveira deu-lhe instruções para fazer uns
telefonemas e retirar-se do local.
Ninguém sabia bem como começar a conversa, e foi novamente Pinto da Costa quem
deu o toque de partida.
-Então, como é que se tem dado lá pela capital?
-Mais ou menos - respondeu Joaquim Oliveira, ainda receoso.
António não era homem para perder muito tempo com conversa fiada e foi logo directo
ao assunto:
-Estive ontem reunido com o Senhor Pinto da Costa, e ele quer aliar-se a nós para ajudar
a fazer crescer a Olivedesportos.
Joaquim Oliveira ficou mais descansado, deixou aliviar a pressão a que tinha estado
submetido, e iniciou-se o meeting negocial. No final de mais de duas horas de conversa,
foram jantar, desta vez já na companhia de Adélia.
No dia seguinte, estava mais um negócio em marcha. Era a fuga para a frente nos
negócios do futebol, que poderia vir a salvar os milhares perdidos noutros projectos. Pinto da
Costa tinha-se convencido completamente que o ramo em que melhor mexia era o futebol e
não se podia distrair porque a sua posição já tinha atingido um grau tão elevado que não
dava para voltar a vender fogões. Mais do que isso. Não podia perder poder, porque os
inimigos já eram tantos que, no momento em que deixasse de ser presidente do clube, o
mais certo era ser preso.
Para além da publicidade nos estádios, a Olivedesportos tinha de se dedicar às
transmissões directas dos jogos pela televisão. Este era o grande trunfo de Pinto da Costa e
que foi muito bem acolhido por Joaquim Oliveira. Os clubes de futebol tinham-se unido
através de uma Liga, e Pinto da Costa movia-se como ninguém nesse sector, apesar de não
ter lá qualquer cargo directivo. Através dos seus jogos de bastidores, jogando com várias
situações, conseguiu arranjar o primeiro negócio para a Olivedesportos.
Sob as suas ordens, Joaquim Oliveira encontrou-se com personagens ligadas à televisão
e com grande poder no sector. Pinto da Costa tinha-lhe garantido que a melhor situação para
se atingir qualquer objectivo é o dinheiro.
-Toda a gente gosta e quase ninguém resiste. Só tem de se saber como é que se vai
lançar o anzol.
Joaquim Oliveira nunca deixou o gosto pela noite. As grandes discotecas de Lisboa e os
melhores pubs foram sempre locais que não deixou de frequentar. Através de conhecidos,
surgiram algumas amigas de apurado físico que serviram de isco para as personagens ligadas
à televisão. Cresceram as amizades, e as portas acabaram por ser abertas.
De facto, Pinto da Costa tinha razão: era tudo uma questão de dinheiro. Joaquim
Oliveira, com uns poucos milhares de contos, conseguiu fazer com que a televisão não
interferisse directamente no negócio das transmissões directas. A Olivedesportos não tinha
nada a ver com televisão nem meios para fazer qualquer transmissão, mas a televisão tinha
de negociar com eles se queria transmitir os jogos.
Claro que esta situação fez correr muita tinta, e Pinto da Costa voltou a sair um pouco
chamuscado, percebendo-se que ele estava indirectamente ligado ao negócio. Mas voltou a
sair por cima da situação.
Para garantir a sua participação nos lucros da empresa, um dos vices da sua confiança
foi feito sócio, mas acabou por abandonar essa ideia, até porque os seus projectos iam para
além do primeiro negócio efectuado. Os «Oliveiras» passaram a fazer parte da sua gente de
confiança, muito embora o ex-jogador e treinador se mantivesse sempre afastado de
qualquer contacto ou tipo de negócio. Era inteligente de mais para se deixar envolver por
situações menos claras. A sua participação surgia somente na distribuição dos lucros.
Para afastar qualquer tipo de desconfiança, Pinto da Costa colocou logo em prática outro
projecto. A sua participação na agência de viagens estava a ficar um pouco comprometida.
Ele não podia surgir de forma alguma como um dos interessados no negócio e tudo passou a
ser gerido através de uma holding encabeçada por Joaquim Oliveira.
O futebol começava enfim a dar os seus lucros. Mas era necessário criar um sector de
poder onde se pudesse promover a imagem das pessoas ligadas a todos estes negócios e que
por razões conhecidas saíssem chamuscadas. Um jornal desportivo ou uma rádio local era o
ideal. A ideia começou a avançar, mas a rádio local não deu resultado. O poder de
comunicação tinha de ser nacional.
Ao longo dos tempos, Pinto da Costa foi semeando a sua força na comunicação social,
promovendo jornalistas ao mesmo tempo que os colocava em posições chave no interior dos
jornais desportivos. Sem grande esforço, conseguiu criar o seu clã. Arranjava bons empregos,
com a condição de ditar o silêncio quando melhor lhe convinha.
Os escândalos rebentavam, mas tinham sempre uma dimensão muito restrita. Nem era
necessário pedir censura. Os próprios jornalistas tinha a consciência de que no clube de Pinto
da Costa não se podia tocar e quem não respeitasse essas regras recebia um primeiro aviso
dos capangas e eram-lhe fechadas todas as portas de acesso à informação. PC conseguiu,
assim, implantar a lei do medo. Uma ditadura capaz de fazer inveja a um Salazar ou a um
Pinochet, indo mesmo ao ponto de «sugerir» às direcções de alguns jornais, quais os
jornalistas que gostaria de ver a tratar dos assuntos do seu clube. Para ajudar, os jornais
desportivos entravam também numa guerra declarada pelas audiências, o que permitiu a PC
jogar sempre com o chamado pau de dois bicos, ora fazendo de conta que favorecia este, ora
mudando a sua simpatia para o outro. Os directores dos jornais sabiam bem como gerir a
situação.
Na Ribeira do Porto, dois homens estão frente a frente, tendo como intermediário um
copo quase a transbordar de vodka. Um deles foi o craque do clube da cidade(Fernando
Gomes). O outro é um jornalista desportivo. Ambos recordam os bons velhos tempos, quando
Pinto da Costa era apenas um elemento de uma equipa que então ganhava sem precisar de
recorrer a meios ilícitos e sem possibilitar o ganho de milhares de contos a marginais e
arrivistas.
O jogador começou a conversa:
-Este mundo é mesmo ingrato.
-A quem o dizes - suspirou o jornalista.
-Parece que estão todos contra mim. Até o teu colega Tavares Teles me vigarizou em mil
contos. Disse que ia escrever o livro da minha vida, pediu o adiantamento e o livro foi um ar
que se lhe deu...
-Que é que se há-de fazer? Este mundo do futebol é mesmo assim. Também não te
despediram do clube sob o argumento de que tinhas faltado ao jantar?
-Essa é que foi... Deus do céu, só de pensar o quanto eu gosto daquele clube! Mas esse
moço de recados, o Octávio, vai ter um bonito funeral.
-Não acredites nisso - retorquiu o jornalista, baixando o tom, pois acabara de entrar no
bar um elemento que não conseguiu identificar. - o tipo sabe enganá-los com falinhas
mansas. Sabes que com todo o dinheiro que tem ainda está a dever mil paus ao director do
meu jornal, uma coisa dos tempos de Coimbra?
-Vou sair do futebol - anunciou o craque, após uma longa pausa. - Este mundo não vale
a pena: só os vigaristas, os bruxos e os indigentes é que têm futuro. E não vale a pena metêlos
todos num convento, um a um, pois rapidamente iriam acabar por convencer os próprios
santos. Bah!, que se lixem esses gajos...
-Tem fé, amigo, pois vão acabar por cair de podres.
Mas Fernando Gomes, o craque, não estava num dia positivo. Fechou os olhos e por
momentos recordou os golos que marcou, viu-se de braços no ar, os cabelos molhados,
correndo para os adeptos, subindo a rede, abraçando o presidente e pensando que o mundo
se resumia ao estádio.
-Lembras-te quando disseste que a sensação de marcar um golo era superior à de um
orgasmo? - perguntou o jornalista, quebrando um silêncio apenas embalado por uma música
do Rui Veloso que se ouvia em fundo.
Fernando Gomes desfiou as suas mágoas, num lamento-monólogo que foi subindo de
tom:
-Já sei que não sou um génio; nem acabei o curso dos liceus, mas não sou como aquela
besta do «capitão» (João Pinto), que ia para os estágios sempre com o mesmo livro,
continuando a ler no local que nós íamos marcando, ora mais adiante ora mais para trás. Mas
corri um pouco o mundo, leio os jornais e não me dou com a ralé. Até dizem que tenho voz
radiofónica e quem sabe se não poderei ser um dia um grande comentador desportivo. Ah,
mas o meu sonho, o meu grande sonho, é ser presidente do clube, isso sim, isso iria encherme
as medidas! Eu sei, eu sei, não digas nada, já sei que só depois de o homem morrer é
que terei algumas hipóteses. Mas ele não vai morrer tão cedo. Não sei como, mas conseguiu
a protecção da Nossa Senhora de Fátima. Sim, da Nossa Senhora de Fátima. O cabrão! Só a
mim é que ela não aparece...
Fernando estava inconsolável:
-Não lhe vou perdoar nunca o facto de me ter obrigado a acabar a carreira noutro clube,
logo eu, o símbolo daquele emblema, a sua imagem de marca, o primeiro a dar-lhe algum
dinheirinho para o bolso e o favorito do Pedroto.
Aqui Fernando teve uma ideia:
-Ouve lá, e se eu lançasse uma campanha para dar o nome de Pedroto ao nosso
estádio?
A ideia nasceu ali, naquele momento, mas no mesmo dia, PC teve dela conhecimento. -
Vão ter que esperar sentados! - rugiu, sem conseguir esconder que lhe estavam a tentar
cravar um espinho na pata.
A ideia nasceu, foi regada e germinou. Numa noite de Inverno, foi mesmo debatida e
aplaudida num colóquio que se realizou nos arredores da cidade do Porto. Os jornais fizeram
eco do acontecimento, mas nenhum jornalista ousou perguntar a PC o que pensava da ideia.
PC evitou sempre a pergunta, na certeza de que o assunto acabaria por ficar esquecido.
-O Pedroto já lá tem uma lápide, não precisa de mais homenagens e, c´um raio, se ele
merece o nome no estádio, o que é que eu não mereço? - Interrogou PC os botões do seu
novo fato príncipe-de-Gales.
Moreira(talvez Hernâni Gonçalves ou Joaquim Teixeira) foi um jogador muito discreto. O
melhor que conseguia era de quando em quando, partir a perna ao melhor jogador da equipa
contrária. Para compensar a falta de talento, tomava mais duas pastilhas que as
aconselháveis e injectava-se por conta própria, ao ponto de um dia, o médico do clube o ter
aconselhado a parar, pelo menos, durante 24 horas com aquilo, sob o risco de bater a bota.
Moreira era tão ambicioso como tosco. É certo que acabou a carreira aos 30 anos e com a
calvície a pronunciar-se, mas terminou-a em beleza: com uma boa conta bancária e um
chorudo cheque por ter derrubado um adversário na área de rigor, proporcionando um
penalti que salvou a equipa contrária de descida de divisão. O lance não causou qualquer tipo
de suspeitas, pois o Moreira era mesma assim - às vezes acertava, outras não.
Mas a história de Moreira pouca relevância teria na história da vida de Pinto da Costa, se
o primeiro não acabasse por se tornar um grande amigo do segundo, depois de ser
apresentado por António Oliveira. Rapidamente se gerou ali alguma cumplicidade, não
faltando a adorná-la o habitual naipe de mulheres da vida, desde a classe de iniciadas até às
séniores em fim de carreira. Para ajudar, o País vivia um ascensão económica que tinha os
dias mais ou menos contados, mas que iria ser boa enquanto durasse.
Com o Moreira a controlar as miúdas e o António Oliveira a dar a táctica, PC tinha a vida
nocturna que queria, mas, ao contrário de Reinaldo, continuava muito agarrado ao dinheiro,
não o arriscando na roleta. Esta última acabou por se revelar a desgraça de Reinaldo, que aí
foi deixando largas centenas de contos, proporcionando também a um conhecido jornalista
algumas jogadas de risco, em especial quando a equipa se deslocava à Madeira. Sempre
adiantado dois passos em relação aos restantes, António Oliveira foi-se afastando do grupo,
mas nunca se desligou. Moreira, entretanto, leu dois livros policiais e começou a falar como
um doutor, deixando de ser adjunto do António - então um treinador de mediano sucesso -
para se tornar técnico principal. O conhecimento que tinha da arte das pastilhas acabou por
se aliar a um feeling muito especial e, rapidamente, enquanto ia esvaziando o stock de uma
farmácia próxima de Paredes, conheceu o sucesso.
-O futebol é um espanto. Ainda ontem estava a queimar o couro no pelados e hoje eisme
a fumar um charuto e a dar bitaites para os jornais! - dizia Moreira para a mulher,
enquanto apreciava as miúdas que se passeavam no areal de Cancun, onde uma conhecida
apresentadora de televisão fazia discretamente amor com dois jovens craques que nesse ano
tinham surgido na ribalta.
-Chegou a hora de começar a apanhar peixe graúdo, pois estou farto de andar aos figos!
-desabafou, longe de saber que nesse momento, PC tinha engendrado mais um plano
diabólico.
O plano era simples e partia do seguinte pressuposto: no futebol, nem só os jogadores
são a mercadoria; há que contar também com o treinador.
-E os treinadores, Reinaldo, é que marcam golos ou os permitem! - referiu PC,
merecendo o assentimento de Reinaldo.
-Vai ser canja - continuou o presidente. - Fulano precisa de clube, e nós arranjamos esse
clube, a quem damos a garantia de que, com aquele treinador, é que a equipa não desce;
não sendo preciso dizer mais nada, eles ficam logo a saber que nós seremos os anjos-daguarda.
-E o que é que nós vamos ganhar com isso, presidente?
-Tudo. Começamos por ganhar nos treinadores, que nos vendem a alma para o que for
preciso. Depois, ganhamos com os clubes que os contratam, que também nos ficam a dever
favores. Mas não é tudo. Para além de eventuais comissões que virão directamente para os
nossos bolsos, os bons jogadores que aparecerem nesses clubes ficam garantidos para o
nosso lado e aqueles que forem excedentários do nosso plantel podem ir asilar para esses
clubes, o que nos desobriga logo de lhes pagar os ordenados. Isto é o ovo de Colombo.
-De quem?
-De Colombo, do tipo que descobriu a América. Não julgues que também ele não
enganou os Espanhóis. No fundo, era de Génova. O Cristovão...
-Quem? O da televisão?
-Não, burro, o Cristovão Colombo, e repara que até ele se enganou, pois pensava que
estava a descobrir o caminho para Índia quando descobriu a América. Foi o que me disse a
Nancy, a nova, aquela que trabalhava num videoclube...
-E que tal?
-Para o Colombo não correu mal...
-Não presidente, que tal a Nancy?
-Ah, a Nancy!...boa, sabe aquelas coisas dos filmes...
-...o beijo pressionado?!
-Qual beijo pressionado, qual quê! Aquelas coisas mais complicadas. Mas não
desconversemos. Quero que fique assente que a partir de hoje temos de formar um lobbie...
-Ó chefe, mas isso compra-se com dólares ou com pesetas!...
-Calado - prosseguiu, já algo irritado, Pinto da Costa. - Vai ser assim: andam por aí uns
rapazes com talento, alguns até foram nossos jogadores, mas os clubes são mais que muitos
e as melhores oportunidades normalmente são dadas aos treinadores estrangeiros. Vamos
acabar com isso. A nossa garantia vai abrir os olhos aos clubes, que passarão a perguntarnos
que treinador é que podem contratar. Nós é que o escolhemos, percebes? Mas o rapaz
que for escolhido já sabe que nos deve não um, mas muitos favores, entendes? Para além de
passarmos a controlar o que já sabes, ficamos também com a certeza de que eles farão tudo
para derrotar os nossos adversários directos, enquanto que nos jogos com a nossa equipa!...
percebeste agora?
-Mas, ó presidente, isso é genial!
Claro...
O plano foi posto em marcha logo nessa temporada, tendo como cabeça de fila o
Moreira, também conhecido por «Fixe». Os clubes da região caíram nas palminhas de PC, só
um deles desceu por manifesto azar, e os adversários directos, por norma, tramaram-se nas
deslocações aos terrenos das equipas controladas. Como se tal não bastasse, PC foi pedindo
alguns adiantamentos ao longo da época aos presidentes mais abonados, que ficavam
satisfeitos só pelo facto de surgirem ao lado de PC ante as câmaras dos repórteresfotográficos.
Um deles, o Martins, até se deu ao luxo de reunir na sua quinta os mais ricos
empresários da região, com estes, a troco de um galhardete autografado, a entregarem nas
mãos de PC uma generosa quantia «para ajudar o clube mais representativo da região».
Na altura, alguns jornalistas ainda tentaram investigar uma história que podia ser o fio
da meada ou o fim da picada. Era a história de um jogador belga (Cadorin) que, nos minutos
finais de um jogo no estádio do clube grande, entrou em campo, ao que se supõe, apenas
para, na sua área, provocar uma grande penalidade, jogando a bola com a mão e dando
assim a possibilidade à equipa da casa de vencer o jogo e não se atrapalhar na corrida para o
título. O jogador desapareceu de circulação, e a última vez que foi visto foi a fazer compras
em Roterdão, supondo-se que hoje vive desafogadamente numa quinta dos arredores de
Liège, onde todos os anos, pelo Natal, recebe um peru com uma mensagem de PC.
E o Moreira? De subida em subida, foi até onde pôde. Depois, claro, já não podia subir
mais. PC tinha encontrado um livro num caixote cujo autor era um tal doutor Peter, defensor
dos princípios de competência.
-Reinaldo, isto é assim: tu só és competente até determinado nível; se o ultrapassares,
passar a ser um incompetente, percebes?
Reinaldo mais uma vez não percebeu bem, pois, como ele mesmo dizia, tinha uma
cabeça que trabalhava a «carvão».
-O Moreira é bom nestas coisas. Quanto muito, posso arranjar maneira de o pôr a treinar
a selecção de sub-12, se é que isso o realiza. Mais é que não. Fica onde está e caladinho, e
isto é se quer continuar a passar férias a Cancun.O Moreira concordou, apenas com um
pedido. No final da próxima época, preferia ir de férias para as Seychelles!
Já se sabe que PC, depois de fracassar no comércio, concentrou as forças vivas das sua
massa encefálica nos negócios paralelos do futebol. Mas um dia perdeu-se num atalho e
decidiu comprar uma estacão de rádio, quando os alvarás destas estavam a ser distribuídos
como que ao desbarato e pelo preço da chuva.
Com a ajuda de uns tantos amigos, o negócio depressa de concretizou, muito embora o
poder local não visse com bons olhos esta incursão de PC no espectro radioeléctrico.
-Será que ele quer concorrer comigo? - questionou-se o presidente da Câmara.
Na altura, os jornais falavam muito do assunto e até iam mais longe, insinuando que PC
estaria em vias de formar um partido político capaz de vencer as próximas eleições. PC
sentiu-se lisonjeado com a criação deste facto político, tanto mais que era apenas sua
intenção fazer mais tarde uns dinheirinhos com a estação de rádio, o que acabou por
concretizar dois anos depois, quando a vendeu aos «Pastorinhos de Belém», uma seita
religiosa do Bairro do Falcão.
Bem instalado na vida, PC fazia o que queria da classe política.
-Tenho-os na mão - e dizia isto com um sorriso rasgado, enquanto Reinaldo batia
palmas.
Lá fora, no campo de treinos, o novo treinador iniciava mais uma época, e os jornais
eram unânimes em entregar o favoritismo à equipa dirigida, com sapiência, por Pinto da
Costa, um presidente que ronronava de felicidade no seu gabinete climatizado. A gata,
prenhe, bebia mais um pires de leite, e os jornais traziam de novo na capa o rosto desafiador
e firme de Pinto da Costa, o presidente campeão.
Nasci para ganhar!- exclamou, antes de adormecer, sonhando que Deus lhe estava a
cortar as unhas dos pés.

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