31/05/07

O "MEU" BENFICA 2007-2008

Eis uma proposta como qualquer outra:
GUARDA-REDES - Quim e Moreira.
DEFESAS - Nélson, Luisão, Anderson, Léo, Luís Filipe (ex Braga), Marc Zoro (ex Messina), David Luíz e Miguelito.
MÉDIOS - Petit, Katsouranis, Karagounis, Rui Costa, Nuno Assis, Ruben Amorim (ex Belenenses) e Tiago Gomes (ex E.Amadora).
AVANÇADOS - Nuno Gomes, Simão Sabrosa, Miccoli, Zalayeta (ex Juventus) e Mantorras.

ALTERNATIVAS A SEGUIR- Rolando e Dady (Belenenses), Filipe Teixeira (Académica), Amuneke (V.Setúbal), Antunes (Paços de Ferreira), Edgar (Beira Mar) e Andrés Madrid (Braga).
JOGADORES A EMPRESTAR- José Fonte, Amoreirinha, João Coimbra, Romeu Ribeiro, Pedro Correira, Diego Souza, Patafta, Yu Dabao, Manu, Fábio Coentrão e Paulo Jorge.
VENDER- Moretto, Karyaka e Beto.
DISPENSAR- Marco Ferreira e Derlei.

30/05/07

DEZ MOTIVOS PARA UM FRACASSO

Eis dez motivos para a fracassada época da equipa do Benfica, que são também, em certa medida, um manifesto de inocência do técnico Fernando Santos:
1º A TRANSFERÊNCIA ABORTADA DE SIMÃO – Quer se assuma, quer não, toda o planeamento da temporada benfiquista foi feito a partir do pressuposto de que Simão sairia para o estrangeiro. Desde a dispensa de Geovanni, à contratação de Rui Costa e Kikin Fonseca, tudo apontava para um sistema de jogo que contemplasse dois pontas de lança e nenhum extremo.
Com o fracasso das negociações com o Valência, já em finais de Agosto, Fernando Santos ficou com um “menino nos braços” – se por um lado resgatava um extraordinário jogador, por outro via toda a sua estratégia ter de ser reformulada, ficando com um plantel assimétrico e desadequado a tudo o que fora trabalhado até então.

2º MUNDIAL – Ao contrário de Porto e Sporting, o Benfica viu uma parte significativa do seu plantel envolvida num longo e desgastante Mundial, que Portugal disputou até ao penúltimo dia. Simão, Nuno Gomes, Petit, Quim, e também Luisão, Kikin Fonseca e Mantorras viram as suas férias substancialmente reduzidas, e apresentaram-se na fase inicial da temporada com natural défice físico.
Por exemplo o Sporting apenas teve o guarda-redes Ricardo em competição, e o F.C.Porto, dado que Ricardo Costa não passou do banco de suplentes, apenas teve de “recuperar” Lucho, sendo que a sua temporada acinzentada mostra bem o peso deste aspecto.

3º INDEFINIÇÃO NO PLANTEL – Não foi só a saída de Simão que esteve em permanente equação na pré-temporada. Karagounis chegou a ser dado como transferido, Miccoli só durante o estágio viu a sua permanência garantida, Miguelito só chegou nos últimos dias de inscrições, Karyaka esteve dispensado, Beto, Diego Souza, Moretto e Marco Ferreira permaneceram em dúvida até já depois dos primeiros jogos, e o caso Manuel Fernandes foi gerido de forma que até hoje ainda não entendi. A instabilidade foi total, e contrariou em absoluto a solicitação de Fernando Santos, que queria iniciar o estágio com o plantel fechado.
Este é um aspecto a que a direcção terá de estar mais atenta na corrente temporada, sob pena de as consequências serem igualmente desastrosas.

4º CASO MATEUS – Vindo de uma pré-eliminatória da Liga dos Campeões importantíssima, que obrigou naturalmente a uma preparação de alguma especificidade, o Benfica viu a sua primeira jornada da Liga ser adiada para pouco antes do Natal. Para além da quebra que isso representou nos índices físicos dos jogadores (viu-se no Bessa…), a equipa andou quase toda a primeira volta com o peso de três pontos em débito, o que também a nível anímico não terá ajudado muito.

5º ADAPTAÇÃO A UM NOVO MODELO –Para além das questões em redor do sistema táctico, Fernando Santos procedeu a uma significativa alteração do modelo de jogo dos encarnados. Uma equipa que estava habituada e vocacionada, desde os tempos de José António Camacho, a jogar com um bloco baixo, pouca distância entre linhas, e transições defesa-ataque rápidas protagonizadas quase sempre por Simão e Geovanni, teve de reaprender a jogar mais adiantada no terreno, com uma amplitude de preenchimento de espaços maior, o que numa primeira fase se revelou caótico em termos de transições defensivas, traduzindo-se no sofrimento de muitos golos, factor ainda mais acentuado pela aprendizagem que o meio-campo (habituado a duplo-pivot) teve de fazer do sistema em losango, nomeadamente quanto à cobertura das subidas dos laterais.
Com o decorrer da época este aspecto foi corrigido, mas os pontos de atraso já eram muitos. Talvez este tenha sido o factor preponderante na eliminação do Benfica da Champions League (lembram-se de Glasgow?).

6º A SAÍDA DE VEIGA – Sensivelmente a meio da época, o grupo de trabalho do futebol benfiquista viu-se confrontado com a saída do seu chefe. Para muitos jogadores, designadamente os estrangeiros, Veiga era o elo de ligação mais forte com o clube. Para além desse papel, o ex-director era o homem de todas as decisões e de todas as soluções. Sem ele a equipa ficou órfã, pois acabou por não ser substituído.

7º O MERCADO DE INVERNO – A abordagem do Benfica ao mercado de inverno foi calamitosa. Se por um lado não conseguiu evitar as saídas de Alcides e Ricardo Rocha – dois jogadores que em conjunto faziam cinco posições na defesa -, vendeu precipitadamente Kikin Fonseca, justamente numa altura em que começava a dar sinais de adaptação, e emprestou Diego Souza para este brilhar no Grémio de Porto Alegre. Na mesma altura ficou sem Nuno Assis em resultado de uma estúpida teimosia da direcção.
Para compensar estas cinco saídas, o Benfica apenas contratou um jovem desconhecido (David Luíz), e um oneroso veterano saído de um longo período de inactividade (Derlei).
Não seria nesta sangria que seguramente Fernando Santos pensava quando, antes do Natal, afirmou ter um plantel demasiado longo. Até porque jogadores como Beto, Marco Ferreira, Paulo Jorge ou Pedro Correia permaneceram no clube, quando se esperava que fossem eles os sacrificados.
A sensação que fica é que, para além de uma preocupante inabilidade negocial, a direcção do Benfica, afastada da Champions e a oito pontos do Porto no Campeonato, terá dado a época como perdida, esquivando-se a um investimento que, se feito ponderadamente, poderia talvez ter permitido ao Benfica sagrar-se campeão e ter voltado a uma final europeia.

8º PRESENÇA NA EUROPA – Para quem fizesse uma análise fria e objectiva ao plantel benfiquista pós-Janeiro, era evidente a incapacidade do mesmo para fazer face a duas competições como a Liga Portuguesa e a Taça Uefa.
Na defesa a inexistência de opções era gritante. Apenas um lateral direito, apenas três centrais. No meio campo, apenas cinco jogadores capazes de dar garantias. No ataque, um Nuno Gomes dos desenhos animados, um Derlei desadaptado, um Mantorras incapacitado, restando a inspiração pontual de Miccoli para resolver os problemas.
Para ser campeão talvez pudesse ter chegado (Trappatoni que o diga), mas para ter veleidades europeias, disputar jogos decisivos todas as quintas-feiras e domingos, fazer alguma rotação que permitisse a este ou aquele elemento uns dias de repouso, manifestamente era um plantel insuficiente – recordo por exemplo que o Benfica jogou e empatou em Aveiro três dias depois de ter jogado em Barcelona e três dias antes de receber o Espanhol na Luz.
Como já disse, talvez na altura (Janeiro) já não se pensasse no título. Mas as sucessivas escorregadelas do F.C.Porto deixaram o Benfica na obrigatoriedade de ter de lutar com afinco pelas duas provas. Aconteceu o que se esperava e temia, e até a eliminação da Taça de Portugal se deverá a este aspecto.

9º LESÕES – É de entre os pontos aqui referidos talvez aquele que mais directamente condicionou a equipa.
Tudo começou com Rui Costa, que perdeu toda a primeira volta e toda a Liga dos Campeões nas circunstâncias que se conhecem. Durante esse período também Miccoli e Karagounis estiveram vários jogos ausentes. Mas foi a partir de Março que o panorama se agravou de forma dramática.
Luisão, jogador fundamental, lesionou-se em Paris perdendo o resto da temporada, ou seja onze jornadas da Liga e quatro jogos da Uefa. Simão ficou afastado do jogo com o Sporting, e não mais voltou à equipa. Nuno Gomes também perdeu as últimas jornadas, depois de se andar a arrastar semanas a fio com uma perturbante pubalgia.
Se juntarmos a estes elementos as lesões episódicas de Petit, Quim e Katsouranis, isto sem falar de Marco Ferreira ou Paulo Jorge, temos uma sequência absolutamente aterradora, mais a mais num plantel, como já foi dito, bastante carecido de opções.

10º OS POSTES – Para além de tudo o que ficou dito, também a sorte dos jogos não acompanhou o Benfica nos momentos decisivos da época. Jogos como os que disputou frente ao Boavista e ao Espanhol são símbolos maiores de uma saga azarada que terá começado logo no Dragão - onde um golo no quarto minuto de descontos deu três decisivos pontos ao F.C.Porto – e tido sequência na Champions, com derrotas infelizes com Manchester e Celtic, para além do caso do penálti falhado por Saha no último minuto do Celtic-Manchester que virou do avesso as contas do grupo face à última jornada, obrigando o Benfica à missão impossível de vencer em Old Tarfford.
Particularmente na segunda parte da recepção ao Espanhol, duas bolas nos postes, e uma falha inacreditável de Nuno Gomes, fizeram sentir de modo claro aos benfiquistas que este não era manifestamente o ano deles.
Enquanto isto, outros, sem Europa e quase sem lesões, viam as bolas entrarem nas balizas com inacreditável facilidade na aurora das suas partidas, e vêm-se agora glorificados como vencedores de uma época que, decididamente, não se quis vestir de vermelho.

DOIS HOMENS, DUAS ENTREVISTAS, DUAS ATITUDES

Ontem à mesma hora, RTPN e SIC Notícias em mais uma absurda manifestação de contra-programação (com responsabilidades totais para a segunda, pois aquele é o horário de sempre do “Trio d’Ataque”), levaram à antena entrevistas de fundo com Paulo Bento e Jesualdo Ferreira respectivamente.
Recorrendo ao vídeo não deixei de ver as duas, e o contraste foi total.
Enquanto o jovem técnico Paulo Bento dissecou a época dos leões com uma clareza de discurso notável, sem lamentos nem evasivas, com firmeza mas também com educação e elevação, o veterano treinador portista aproveitou a ocasião para se queixar de tudo e todos, disparar em várias direcções (adversários, árbitros, imprensa), mais parecendo necessitar de ajustar contas com um mundo que julga ver persegui-lo. Quem não soubesse, nunca diria tratar-se do campeão nacional.
Esta triste aparição de Jesualdo Ferreira leva-me àquilo que tem sido o discurso portista desta e doutras épocas, e que o técnico parece ter interiorizado na totalidade, não se apercebendo do ridículo da sua figura de “cristão novo” em território de almas fanatizadas.
O F.C.Porto de Pinto da Costa sempre procurou fazer a sua afirmação de poder encontrando inimigos externos que, como qualquer tratado militar indica, contribuíssem para a unidade interna. A matriz identitária do povo do norte – de sangue na guelra, facilmente fanatizável, sempre disposto a combater por qualquer coisa, algo que não é possível encontrar, por exemplo, em Lisboa – era a parceira ideal para esta estratégia. A “lavagem cerebral” a jogadores e técnicos induziria neles esta atitude guerreira, hostil e arrogante que se traduzia numa extrema combatividade no relvado, e daí em vitórias e títulos, isto sem chamar para aqui outros aspectos paralelos e de não menos importante contribuição para o percurso portista das últimas décadas.
Esta estratégia, na mesma medida em que contribuiu para uma enorme força interna, originou também uma generalizada hostilidade no país desportivo e no país, eu diria, civil. Só assim se compreende que um clube com as conquistas nacionais e internacionais do F.C.Porto continue cingido a uma base de adeptos bastante limitada em termos geográficos – pois ainda que a sua representatividade tenha crescido no sul do país, esta continua a ser globalmente a realidade, sobretudo se comparada com Benfica e Sporting,
Ora não se pode pretender ter “sol na eira e chuva no nabal”. Se o F.C.Porto pretende unir às suas forças à custa do confronto e do conflito, não pode depois esperar que adversários, comunicação social e outros agentes lhe devotem qualquer espécie de simpatia, e que se regozijem com os seus êxitos, depois de passarem uma, duas, e muitas épocas a serem constantemente atacados e ofendidos de forma cínica e arrogante, ainda que por vezes apenas reflectora de uma mentalidade profundamente provinciana e menor.
Pinto da Costa entende perfeitamente essa realidade, e nunca se incomodou nada com ela até ver o seu nome ligado à corrupção desportiva. Jesualdo talvez ainda não a tenha percebido em todos os seus contornos, e daí a sua pretensa indignação – faço ao professor a justiça de não o considerar hipócrita na sua análise.
Foi assim penoso ver o técnico queixar-se da imprensa – que não dava o mesmo realce às vitórias portistas, o que é perfeitamente natural pois afinal é a voz do país, e este não se revê manifestamente nos métodos portistas -, da arbitragem – que não beneficiou tanto o F.C.Porto como todos estávamos habituados, mas também não se pode dizer que o tenha prejudicado – e de sei lá mais quem, num discurso redondo, triste, rancoroso e antipático, que em nada contribuiu para melhorar a (fraca) imagem de Jesualdo como profissional de topo.
Jesualdo não percebeu também ainda que foi campeão à boleia de um plantel riquíssimo e com um cultura de vitória perfeitamente assimilada, à qual ele pouco ou nada acrescentou até chegar a um título que, mesmo assim, acabou por ser bastante sofrido, e para alguns até imerecido.
Não sei qual é a ideia que os portistas têm deste treinador, mas suponho que também não seja isenta de grandes reservas. Se há casos em que não se pode agradar a todos, outros há em que se parece não agradar a ninguém. Assim se chega aos 60 anos sem nada ganhar.

29/05/07

PRÉ-ELIMINATÓRIA DA CHAMPIONS (actualização)

É agora possível, com mais rigor, actualizar a lista de possíveis adversários do Benfica na 3ª pré-eliminatória da Liga dos Campeões:
Sparta de Praga (República Checa), Fenerbahce (Turquia), AEK de Atenas (Grécia), Dinamo de Bucareste (Roménia), Slávia de Praga (República Checa), Rosenborg (Noruega), Spartak de Moscovo (Rússia), Estrela Vermelha de Belgrado (Sérvia), F.C.Copenhaga (Dinamarca), Toulouse (França), Dinamo de Zagreb (Croácia), Debrecen (Hungria), Racing Genk (Bélgica), F.C.Zurique (Suíça), F.C.Salzburgo (Áustria) e Elfsborg (Suécia).
O sorteio terá lugar a 3 de Agosto.

A LIGA PORTUGUESA 2006-2007 de A a Z

Seguindo aquilo que já vem sendo uma tradição deste espaço, avançamos hoje para um balanço da Liga Portuguesa 2006-2007 de A a Z.

A de ADRIANO – Não se fala muito dele na hora de escolher as principais figuras do F.C.Porto, mas o que é certo é que o ponta-de-lança portista (um dos mais genuínos a jogar em Portugal) marcou onze golos em apenas treze jogos - esteve fora das opções durante toda a primeira volta, chegando a ser dado como dispensado -, revelando-se uma das unidades mais importantes da equipa nos momentos decisivos, nos quais, à semelhança da época passada, foi ele a garantir alguns providenciais golos com que os portistas foram ultrapassando difíceis obstáculos.

B de BELENENSES – Fora da órbita dos três grandes, foi ao Belenenses que coube a maior fatia do protagonismo nesta temporada. Jesus preparou a equipa sem saber em que divisão jogaria e a verdade é que, surpreendentemente, os azuis do Restelo foram em muitos momentos aqueles que melhor futebol praticaram, terminando em quinto lugar e com uma louvável presença na final da Taça. Veremos que sequência será dada a este trabalho, e sobretudo se Jesus (e os seus principais jogadores) vai resistir às ofertas que por aí se vão ouvindo.

C de CANTERA – A cantera de Alcochete continuou a dar cartas nesta época, revelando novos talentos como Miguel Veloso, Yannick Djaló, confirmando Nani e Moutinho, e dando episódico protagonismo a outros como Pereirinha, Ronny ou Rui Patrício. Nela residiu a alma e a força de um Sporting renascido para os êxitos, e que parece ter encontrado em Paulo Bento o homem ideal para dar a estes jovens sequência competitiva ao mais alto nível. Mais à frente falaremos individualmente de alguns dos novos prodígios da cantera leonina.

D de DERLEI – Trata-se de um case-study acerca do mais irracional comportamento dos adeptos de futebol. O “Ninja” chegou ao Benfica rotulado de grande aquisição, mas foram os próprios benfiquistas que desde início lhe condicionaram o rendimento, ao devotar-lhe uma animosidade tão incompreensível como contraproducente aos interesses da equipa. Já havia acontecido com Beto, e antes com jogadores como Maniche, Abel Xavier e Vítor Paneira, que saíram da Luz pela porta do cavalo para brilharem noutros clubes. Um comportamento a rever por aqueles que se auto-intitulam benfiquistas, mas que se comportam como o mais feroz dos adversários para com os seus jogadores.

E de EQUILÍBRIO – Foi de facto um campeonato marcado por algum equilíbrio, mas profundamente segmentado. Os três grandes discutiram somente entre si os três primeiros lugares, não encontrando grandes dificuldades na maioria dos seus jogos. Os três últimos discutiram desde cedo a despromoção (acabando por descer os dois que haviam subido), e apenas na luta pela Europa houve um mais amplo lote de pretendentes.
A maioria das equipas foi vítima da profunda descapitalização financeira e desportiva do nosso futebol, que tem levado à emigração massiva de futebolistas de nível médio para segundas divisões estrangeiras, ou campeonatos como o romeno e o cipriota
Quem disse que há muito se não via tamanho equilíbrio não deve estar lembrado do campeonato de 2004-05, que o Benfica venceu nos últimos minutos do último jogo, e que a poucas jornadas do final contava com cinco (!) candidatos ao título (Boavista e Braga intrometeram-se durante quase toda essa época na luta pelos primeiros lugares). Esta temporada, só uma quebra do F.C.Porto permitiu que a Liga não se encontrasse decidida no final da primeira volta (!), pelo que o equilíbrio não foi de modo algum total nem constante.

F de FORA – Foi impressionante a carreira do Sporting fora de casa. Nenhuma derrota, melhor defesa (apenas seis golos sofridos, sendo três deles no mesmo jogo), mais pontos, nove vitórias em quinze jogos. Bem se pode dizer que foi em Alvalade que o Sporting perdeu o campeonato.
Estes números são bem elucidativos da solidez do modelo de jogo imposto por Paulo Bento, no qual todos defendem com o mesmo rigor e empenho, e em que as transições se fazem com uma geometria assinalável.

G de GOLOS – Os golos nada quiseram com Nuno Gomes durante grande parte da temporada. Depois de um início menos mau, em vinte e dois jogos o avançado encarnado apenas marcou três golos, fraquíssimo pecúlio para quem tem por missão comandar o ataque de um pretendente ao título. Veio-se a saber, tardiamente, que o jogador fora acometido de uma perturbadora pubalgia, quando já se falava em dispensa e a Luz entoava intensos assobios às prestações do “vinte e um”. Alguns falhanços ficaram na retina, como aquele frente ao Espanhol, que teria valido a continuação da carreira europeia do clube.

H de HÉLDER POSTIGA – Que se saiba não padeceu de qualquer lesão inibidora, mas mesmo assim, se à 14ª jornada contabilizava dez golos e liderava a lista dos artilheiros, quase por aí se ficou, marcando apenas mais um golo nos restantes dezasseis jogos, nos quais chegou a nem sequer ver o seu nome entre os convocados. Um estranho caso este, de um ponta-de-lança talentoso, mas cujo rendimento tarda em estabilizar.

I de INACREDITÁVEL – Foi de facto espantosa a sequência de golos nos primeiros instantes das partidas que o Sporting conseguiu na fase final do campeonato. Nas últimas seis jornadas da Liga, e nas últimas três eliminatórias da taça, o Sporting conseguiu sempre marcar nos primeiros dez minutos, e em várias dessas ocasiões logrou mesmo dilatar a vantagem dentro desse mesmo período, num caso verdadeiramente digno de bruxas. Contra o Marítimo conseguiu um golo aos doze segundos de jogo, e com apenas três toques na bola, o que se não é record mundial anda lá muito perto.
É ponto assente que ninguém merece marcar aos dois minutos de qualquer jogo, mas para além das facilidades aqui e ali concedidas, a equipa de Paulo Bento teve o mérito de entrar decidida e forte em quase todas essas partidas, lançando-se sobre o adversário como feras esfomeadas, fazendo jus ao leão que ostenta como símbolo. Assim passou os últimos dezassete jogos da época sem se ver vez alguma em situação de desvantagem, ficando a dúvida de como reagiria se assim voltasse a acontecer. Não por acaso, as duas últimas derrotas do Sporting aconteceram em casa com Benfica e Spartak de Moscovo, em jogos nos quais foram os adversários a marcar nos instantes iniciais…

J de JOGOS GRANDES – Se por vezes é do senso comum dizer-se que os campeonatos se decidem contra os pequenos, desta vez a base estatística para essa afirmação é insofismável.
Nos embates entre grandes o equilíbrio foi total, com apenas uma vitória para cada um dos candidatos, e empates nos restantes enfrentamentos, onde a qualidade, diga-se, foi de um modo geral bastante aceitável.
Curiosamente foi o F.C.Porto a sentir mais dificuldades para alcançar a sua única vitória nos quatro confrontos com os rivais, só a conseguindo ao quarto minuto de descontos. Benfica em Alvalade e Sporting no Dragão venceram e convenceram, em dois dos melhores momentos dos clubes lisboetas ao longo da época.

K de KATSOURANIS – Não fosse um final de época marcado pelo desgaste físico e estaríamos perante uma das grandes figuras do campeonato. De facto, o grego – que até havia começado mal - chegou a ser a grande bandeira do fulgor benfiquista na fase da recuperação da águia. Nos primeiros onze jogos marcou cinco golos, chegando a ser o melhor concretizador da equipa, para além de uma pedra basilar no equilíbrio táctico alcançado por Fernando Santos.
A próxima época ditará se estamos mesmo perante um craque, ou se a irregularidade física irá continuar a condicionar a sua contribuição para a equipa – ele que, como o próprio Fernando Santos disse, estava habituado a fazer menos de trinta jogos por época, e nesta, contando com a sua selecção, teve de efectuar quase sessenta.
Curiosamente foi outro K, mas do compatriota Karagounis, que melhor acabou a época no Benfica, mostrando finalmente os argumentos que fizeram dele uma das contratações mais sonantes do Benfica na época anterior.

L de LESÕES – Como talvez nunca antes tinha acontecido, esta temporada foi marcada claramente pelas lesões.
Quando se enaltece o Sporting como a equipa que melhor jogou (e foi-o), esquece-se o aspecto fundamental que foi a sequência de graves lesões que afastaram dos relvados as principais figuras de Benfica e Porto em fases cruciais da época.
As ausências de Luisão (falhou às últimas onze jornadas), Simão (falhou as últimas quatro), Nuno Gomes (falhou as últimas três), Rui Costa (falhou quase toda a primeira volta), Miccoli (falhou as cinco jornadas iniciais) bem como as ausências pontuais de Katsouranis, Karagounis, Petit, Quim, Léo, os crónicos problemas de Mantorras, e o castigo de Nuno Assis, deixaram um plantel benfiquista já de si curto, perfeitamente dizimado e com poucas condições de competir ao nível a que se propunha.
Mais a norte foram Pedro Emanuel e Sokota (toda a época), Anderson, Bruno Moraes, João Paulo e Ibson (uma volta inteira), Pepe (cinco jogos em fase crucial), Lisandro (reiteradas lesões), Raul Meireles e Paulo Assunção (ausências em fase crucial) e os castigos de Quaresma a limitarem um F.C.Porto, cujo plantel todavia permitia soluções de capazes de maquilhar o rendimento da equipa.
Só o Sporting foi feliz neste particular, tendo apenas de se queixar da lesão de Tonel (que com ela perdeu a titularidade), e na fase final da época de um Carlos Bueno que, salvo o episódio-Nacional, nunca se afirmou como titular.

M de MICCOLI – Livre de lesões a partir do início da segunda volta, o pequeno bombardeiro tornou-se rapidamente na figura maior do futebol benfiquista, ultrapassando mesmo em dada altura Simão como principal veículo de ataque dos encarnados, e alvo da paixão dos adeptos que com ele estabeleceram uma relação de grande empatia.
Nos últimos cinco jogos marcou cinco golos, o que deixa a suspeita de que, caso tivesse jogado na sua plenitude física desde o início, talvez a “Bola de Prata” fosse agora sua. Foram dele (a par talvez de Quaresma) alguns dos mais deliciosos momentos de inspiração individual que a liga portuguesa nos ofereceu.
Pena é que a sua situação contratual não permita alimentar grandes esperanças de que continue de águia ao peito na próxima época. Será uma baixa de vulto num Benfica já de si carenciado no ataque.

N de NANI – Se João Moutinho foi a confirmação da época, e Miguel Veloso a grande revelação, Nani situou-se claramente como aquele que no universo dos jovens leoninos mais oportunidades terá de alcançar uma carreira internacional de top.
Já era titular na época anterior, neste foi muitas vezes a estrela (que início de época sublime!) e o catalizador de toda a criatividade do meio campo leonino - que na fase final contou também com um Romagnoli de eleição, mas cedo ficou privado da eterna esperança Carlos Martins.
Nani, pela sua magia, pela arte que coloca a cada movimento que faz em campo, e também pelas condições físicas que apresenta, tem tudo para se tornar a breve trecho na próxima grande exportação do futebol português. Assim a humildade o acompanhe.

O de OUTRAS EQUIPAS – Como de certa forma já ficou dito, o equilíbrio que permitiu chegar à última jornada com tudo por decidir não significou uma melhor qualidade da nossa Liga. Aparte o Belenenses e o Paços de Ferreira (de certo modo também o Sporting), creio que todas as restantes equipas se apresentaram pior esta época que na anterior. Os históricos Boavista, Marítimo e Vitória de Setúbal foram os casos mais flagrantes desta quebra competitiva, num universo onde os salários em atraso deixaram as suas negras marcas.
Estes e outros clubes foram vítimas da saída de grande parte dos seus jogadores mais importantes, (aqueles tipicamente de primeira divisão mas sem talento suficiente para chegar aos grandes), ficando reduzidas a estrangeiros de segunda, e alguns jovens ainda à procura do seu espaço.
Mas o problema é ainda mais amplo. Os quadros competitivos portugueses estão completamente desajustados a realidade actual do nosso país, e urge encontrar soluções. Num pais pequeno, pobre e em crise, a única forma de termos bom futebol e muito público é limitá-lo a um número restrito de equipas, capazes de aglutinar os adeptos em seu redor. Por outro lado nas divisões secundários, há que aumentar o número de jogos e de receitas, pelo que a solução deveria passar, por exemplo, por uma I divisão com dez clubes e quatro voltas, e uma II divisão segmentada geograficamernte e aumentada (quatro zonas de 22 equipas, por exemplo). Infelizmente outros interesses se levantarão, e nada disto será uma realidade…

P de PEPE – O central portista, que na época passada se havia revelado como jogador de craveira internacional, teve esta época a plena confirmação desse estatuto.
Cedo se vendo privado do experiente Pedro Emanuel a seu lado, Pepe assumiu a liderança do bloco defensivo portista, e tornou-se numa figura central do F.C.Porto e do campeonato.
No momento crucial da época, no Estádio da Luz, realizou uma portentosa exibição, marcando um golo que pode ter valido o título.
Alvo da cobiça de grandes clubes europeus, dificilmente se manterá no F.C.Porto por muito tempo.

Q de QUEBRA – A pausa natalícia foi apontada por muitos observadores como o factor determinante para a quebra de rendimento portista na segunda volta. Não creio que esse raciocínio seja absolutamente linear.
O F.C.Porto, salvo alguns jogos internacionais bem conseguidos (de onde avulta a partida de Moscovo), nunca demonstrou na Liga Portuguesa o poderio que os resultados a dada altura faziam supor.
Nessa primeira volta, à 7ª jornada, os portistas tinham os mesmos pontos perdidos que Benfica e Sporting. Daí até ao Natal , fase em que cimentaram uma larga vantagem, das suas sete vitórias, quatro foram tangenciais, duas delas nos descontos (Benfica e Nacional) e uma com um golo fora-de-jogo (Académica) – o triunfo sobre o Boavista foi aberto com um enorme “frango” do guardião adversário. Vale isto por dizer que essa sequência de resultados positivos deveu-se também em larga medida ao factor sorte (por vezes também às individualidades), raramente significando superioridade futebolística equivalente.
Na segunda volta o F.C.Porto viu apenas aproximar os seus resultados do seu real desempenho futebolístico, que em termos globais esteve longe de ser brilhante. Apenas os resultados foram constrastantes, chegando ainda assim para conquistar mais um título.

R de RICARDO QUARESMA – De entre os comandados de Jesualdo Ferreira, o melhor foi, como seria de esperar, Ricardo Quaresma. À semelhança da equipa também foi bem mais feliz na primeira volta, em que anotou seis golos, do que na segunda quando fez apenas um.
Para além dos golos, Quaresma esteve brilhante nas assistências, sendo o autêntico “abono de família” dos dragões, sobretudo no período imediatamente pós-lesão de Anderson, o tal das vitórias consecutivas.
Na ponta final decaiu muito, disso se ressentindo também a equipa, cujo processo ofensivo sem ele fica significativamente comprometido.

S de SIMÃO SABROSA – A grave e polémica lesão que o afastou dos derradeiros quatro jogos acabou por ofuscar um pouco uma época a todos os títulos notável. À data da lesão, Simão comandava a lista dos marcadores e quase todos os prémios individuais atribuídos pela comunicação social, e era claramente o melhor jogador da prova.
Simão conseguiu alhear-se de toda a controvérsia acerca da sua permanência não plantel e partir para a sua melhor temporada de sempre em termos individuais. Faltou-lhe apenas um título, que pelo trabalho que realizou, enchendo os relvados com uma classe ímpar e com uma entrega irrepreensível, bem merecia.

T de TREINADORES – De entre os treinadores da Liga, dois emergiram como aqueles cujo desempenho mais marcou as suas equipas. Paulo Bento guindou o “seu” Sporting a uma época bem positiva, repetindo o segundo lugar e conquistando a Taça no segundo ano da sua carreira, e assumindo-se assim como o mais promissor dos jovens treinadores portugueses de hoje. Por outro lado, Jorge Jesus vestiu-se de Mourinho dos mais pobres, ao pegar num Belenenses de segunda divisão (foi para isso que foi construído o plantel) e levá-lo à Uefa e ao Jamor. Trata-se de um treinador com um discurso pouco elaborado, com uma imagem algo fora dos ditames da moda, mas que percebe muito, muito de futebol.
Fernando Santos, o grande derrotado, terá uma época mais para mostrar se é ou não ganhador, e Jesualdo, sendo campeão, e tendo naturalmente algum mérito nisso, nunca conseguiu deixar vincada a ideia de ser efectivamente ele o progenitor do triunfo, mas sim de alguém que se limitou a apanhar o comboio certo.
José Mota trata-se de um caso especial de identificação com um clube que conhece como a palma das suas mãos.

U de UEFA – O que fica na história são os títulos e o posicionamento final das equipas, mas não é legítimo fazer o balanço desta Liga sem levar em linha de conta o desgaste que uns tiveram que suportar nas provas internacionais e outros não.
O Sporting, vendo-se eliminado das provas europeias em Dezembro – e vendo os sorteios da Taça de Portugal sorrirem-lhe com uma felicidade de todo fora do comum -, partiu para uma fase final de campeonato arrasadora. Ao contrário, o Benfica, quarto-finalista da Taça Uefa, prova na qual apostou muito da sua temporada (aposta para a qual talvez não tivesse condições objectivas), acabou por ser vítima de alguma natural indecisão entre qual das competições privilegiar, acabando por se deixar naufragar em ambas quando o cansaço e as lesões se fizeram sentir num plantel curto e mal estruturado. Jogos como o de Aveiro, entalado entre o duplo confronto com o Espanhol, acabaram por se revelar determinantes na classificação final.
Fica a incógnita e o exercício especulativo sobre o que seria esta temporada caso em Dezembro tivesse sucedido o contrário, ou seja, o Sporting ter ganho ao Spartak de Moscovo e o Benfica ter perdido com o Copenhaga…

V de VELOSO – Miguel Veloso foi a grande revelação da temporada. O jovem médio leonino sentou o “capitão” Custódio e o experiente Carlos Paredes no banco, assumindo-se como um dos motores da sua equipa, quer em processo defensivo, quer em acções ofensivas, como ainda na final da Taça se pôde ver.
Tem qualidade técnica, escola táctica e planta física para se tornar um caso sério no futebol português. Como se não bastasse, tem em casa um excelente professor no que aos aspectos do profissionalismo diz respeito.

W de WILLIAM – O guarda-redes boavisteiro despediu-se das competições com uma época marcada por altos e baixos. Como alto mais alto de todos ficará seguramente uma das melhores exibições da sua carreira realizada no Estádio da Luz e que impediu o Benfica de assumir uma liderança, que não se sabe até que ponto depois perderia. Foi um jogo marcante na história da prova, e símbolo de uma maldição que se apoderou das balizas da Luz, e que teve outro episódio semelhante no confronto europeu com o Espanhol, sendo então Gorka Iraizoz o protagonista.

X de EMPATES – Os cinco empates em seis jogos que os leões cederam na dobragem do campeonato terão sido uma das chaves para explicar o facto de não terem sido campeões, mau grado a regularidade e o brilhantismo de grande parte da sua época. Curiosamente foi um outro empate, na Luz e em condições que aconselhariam um maior risco, que acabou por subtrair dois pontos que fariam, por si só, a diferença final. É claro que num campeonato decidido por um ponto, todos os “ses” são possíveis de imaginar, mas nos tempos que correm, cada vez mais, empatar é igual a perder.

Y de YANNICK – Era no início da época a grande coqueluche dos sportinguistas, muito por culpa dos dois golos que marcou ao Benfica na pré-época. Pelo ano fora não se pode dizer que tenha desiludido, mas também não deslumbrou. Ao contrário de Nani, Veloso e Moutinho, terá de mostrar muito mais, até convencer de se tratar de um jogador fadado para mais altos voos.

Z de ZANGAS – Com todos os episódios que relançaram o caso Apito Dourado para as páginas dos jornais, o presidente do F.C.Porto entregou-se a um silêncio que, prejudicando eventualmente aqui e ali o seu clube, foi tremendamente saudável para o futebol português, que pelos vistos, ao contrário do seu clube, muito terá a ganhar no dia em que ele o abandonar. Nem mesmo alguns momentos mais corrosivos de Luís Filipe Vieira chegaram para incendiar uma das épocas mais tranquilas de que há memória na história recente do futebol português.

28/05/07

PARABÉNS SPORTING !

À semelhança do que fez com os campeões nacionais, VEDETA DA BOLA homenageia os vencedores da Taça de Portugal, endereçando a todos os sportinguistas, em particular aqueles que aqui são presença assídua - e são alguns...- os mais sinceros parabéns.

UMA TAÇA CHEIA DE JUSTIÇA

A conquista da Taça de Portugal pelo Sporting é um prémio que se ajusta na perfeição àquilo que foi a temporada da equipa de Paulo Bento. Mais do que pelo percurso que os leões fizeram até chegar a esta final – não podemos deixar de o relativizar, dadas as extremas facilidades concedidas pelo sortilégio de um calendário incomum – e até do que fizeram no jogo do Jamor – no qual imperou o equilíbrio, e o golo surgiu quando menos se esperava -, a conquista deste troféu recompensa a brilhante segunda volta que os leões realizaram na Liga, e premeia sobretudo uma filosofia de clube que, nomeadamente em termos de formação, é modelar para o desporto português.
Já há pelo menos duas temporadas que os leões justificavam festejar um troféu. Sobretudo desde que Paulo Bento assumiu a equipa (mas já antes com Peseiro) o Sporting tem ficado sempre muito perto da glória, sendo que por vezes apenas algum azar o impediu de a ela chegar. Desde a direcção, ponderada e eficaz, ao treinador, rigoroso e disciplinador, passado por uma equipa jovem e talentosa, e, porque não dizê-lo, de uma massa adepta genericamente mais correcta do que a dos principais rivais, tudo no Sporting tem sido encaminhado no sentido do sucesso, restando saber se em termos económico-financeiros o clube terá sustentação para no futuro responder às legítimas ambições agora edificadas - é natural que no próximo ano Benfica e Porto surjam bem mais fortes.
Por pouco o Sporting não festeja neste momento uma dobradinha histórica, sobre dois clubes com orçamentos substancialmente superiores, e com todas as condições intrínsecas para se superiorizarem aos leões - na Liga, o Sporting terá sido traído por alguma falta de ambição no jogo da Luz, em que tendo pela frente um Benfica rendido e mais à mercê que nunca, não teve coragem para arriscar uma vitória que, sabe-se agora, valeria o título. No último terço do campeonato o Sporting foi indiscutivelmente a equipa que melhor futebol praticou, que maior solidez revelou, e que, fica a ideia, talvez mais tivesse justificado o título.
Não podemos esquecer também, manda-o a lucidez, que quando comparada com a da concorrência, a temporada do Sporting fica indelevelmente marcada pelo precoce afastamento das competições europeias. O que seria este Sporting se tivesse permanecido envolvido, por exemplo, na Taça Uefa, onde o Benfica teve de realizar mais seis (!) jogos que os leões, facto agora, no momento das contas finais, absolutamente esquecido?
Seja como for, com o segundo lugar e a vitória na Taça, a época leonina não pode deixar de ser considerada um êxito, sobretudo tendo em conta que havia cinco anos que nada se festejava em Alvalade.
No Jamor o Belenenses foi um adversário à altura, equilibrando paulatinamente um jogo que começou sob tons de verde e branco. Nos momentos finais da partida os azuis chegaram mesmo a superiorizar-se aos leões, surgindo o golo de Liedson num momento em que se aguardava pelo prolongamento – e em que o Belenenses se encontrava reduzido a dez unidades, por lesão do seu lateral direito, justamente do lado onde surgiu o cruzamento de Miguel Veloso.
Acabou portanto por ser um desfecho algo cruel para a equipa de Jesus, à qual também assentaria na perfeição uma vitória nesta prova. É de salientar a enorme demonstração de vitalidade que este clube deu ao país, levando milhares e milhares ao Jamor, entre os quais muitos jovens, e mostrando estar dar passos claros ao encontro da sua brilhante história. Assim saiba e consiga manter a necessária estabilidade na sua estrutura.
Cai assim o pano sobre a época futebolística nacional, a qual merecerá oportunamente uma ampla análise neste espaço.
Por agora ficam os parabéns aos vencedores, e o regozijo por uma bela final dentro e fora do campo.

24/05/07

QUEM ESPERA O BENFICA

Quando a época está terminada em praticamente todos os países, é já possível estabelecer com maior precisão o conjunto de possíveis adversários que o Benfica terá de enfrentar na terceira pré-eliminatória da próxima Champions League.
É claro que alguns destes nomes terão ainda de passar pelo crivo das pré-eliminatórias anteriores, pelo que esta é uma análise sujeita a reserva. No entanto o grupo de 16 possíveis adversários não será substancialmente diferente deste:
Olympiakos (Grécia), Anderlecht (Bélgica), Dinamo de Kiev (Ucrania), Levski de Sófia (Bulgária), Sparta de Praga (República Checa), Fenerbahce (Turquia), AEK de Atenas (Grécia), Rosenborg (Noruega), Macaabi Haifa (Israel), Spartak de Moscovo (Rússia), Slovan Liberec (República Checa), Estrela Vermelha de Belgrado (Sérvia), F.C.Copenhaga (Dinamarca), Dinamo de Zagreb (Croácia), Racing Genk (Bélgica) e V.S.C Debrecen (Hungria).

A evitar: Olympiakos, D.Kiev, Sp.Praga, Fenerbahce e Sp.Moscovo.
Nomes mais simpáticos: Genk, Debrecen, Copenhaga, Liberec e Levski.

RANKING TAÇA/LIGA DOS CAMPEÕES

Terminada mais uma edição da prova rainha do futebol internacional, eis a actualização do respectivo ranking:
1º REAL MADRID 963 pontos (9 títulos em 12 finais)
2º A.C.Milan 664 (7 títulos em 12 finais)
3º Bayern Munique 632 (4 títulos em 7 finais)
4º Juventus Turim 529 (2 títulos em 7 finais)
5º S.L.Benfica 490 (2 títulos em 7 finais)
6º F.C.Barcelona 478 (2 títulos em 5 finais)
7º Ajax Amsterdão 469 (4 títulos em 6 finais)
8º Liverpool F.C. 467 (5 títulos em 7 finais)
9º Manchester United 465 (2 títulos em 2 finais)
10º Inter de Milão 364 (2 títulos em 4 finais)

MILANÍSSIMO !





















LADRÕES DE TAÇAS

Se não existe justiça no mundo, bem se pode dizer que o futebol faz questão de se apresentar por vezes como espelho fidedigno dessa realidade, em que aspectos como a sorte, o circunstancialismo e a aleatoriedade ditam leias. Ontem em Atenas tivemos um cabal exemplo de como frequentemente a equipa que melhor joga, que mais ataca, que mais remata, que mais posse de bola tem e que mais ocasiões de golo cria, se pode ver no final banhada nas lágrimas de uma derrota cruel e injusta.
Não retirando mérito à eficácia do Milan – ou não viesse de Itália -, o Liverpool foi a melhor equipa no relvado, e mereceria, pelo menos, que a decisão tivesse sido protelada até ao prolongamento.
Tudo correu mal aos ingleses, desde o momento em que sofreram os golos – o primeiro à beira do intervalo, o segundo três minutos após a entrada de Crouch -, até à fantástica exibição de Dida, à falta de pontaria dos seus rematadores ou à actuação do juiz alemão.
Não se depreenda daqui que foi um jogo excepcional. Não foi. O Liverpool tentou, desde o início, dar-lhe ritmo, velocidade e agressividade, mas deparou sempre com um não-Milan, apostado na especulação e no habitual cinismo com que as equipas italianas abordam estes momentos. Mas ao contrário do que é a imagem de marca do futebol transalpino, nem se pode dizer que desta vez o Milan tenha defendido bem, pois os erros cometidos foram muitos – sobretudo pelo lado de Jankulovski, de quem Pennant fez gato-sapato durante parte significativa do encontro -, e só por manifesta infelicidade os britânicos não foram capazes de os reflectir no marcador.
Em cima do intervalo, no seu primeiro lance de ataque, e na sequência de uma falta muito duvidosa, o Milan, através de um ressalto feliz, conseguiu inscrever uma enorme mentira no placard. Ao intervalo era verdadeiramente escandaloso que o Milan pudesse estar em vantagem no jogo.
Para a segunda parte pouco mudou. O Liverpool tentou, em vão, restabelecer a igualdade, mas com o decorrer do tempo sentiu-se que a frescura da equipa já não era a mesma. Kuyt aparecia muito sozinho na frente, e estranhamente Benitez só para os últimos dez minutos fez entrar Peter Crouch, erro que se revelou fatal.
Num lance de contra-ataque, o génio de Kaká descobriu a primorosa desmarcação de Inzaghi, e este, letal, bateu Reina e resolveu o jogo. Foi o momento mais bonito da partida, e o único, para além de três excelentes intervenções de Dida, em que o Milan se pode verdadeiramente orgulhar do que fez nesta final.
Ainda assim o Liverpool, embalado pela sua alma guerreira e pelas lições da história, conseguiu lançar alguma incerteza na partida, marcando finalmente por Kuyt na sequência de um canto. Faltava já muito pouco, e o coração falava mais alto que a cabeça. O árbitro alemão nessa fase também não ajudou, assinalando faltas por tudo e por nada, e dando apenas dois minutos e meio de descontos, quando se justificavam pelo menos quatro. Não foi assim possível aos “reds” levar a cabo mais uma remontada para a história, como a que lograram faz agora dois anos.
Com o apito final, os jogadores do Milan puderam então festejar o sétimo título europeu do clube. Merecido por aquilo que fizeram até chegar a esta final, mas muito, muito feliz pelo que se passou no Olímpico de Atenas.
Em termos individuais o homem do jogo foi clara e naturalmente Inzaghi, autor dos dois golos da sua equipa. Kaká esteve nos golos e salpicou com alguns pormenores de classe uma exibição globalmente apagada. Seedorf também pouco se viu. Dida, esse sim, esteve excepcional. Nota ainda para Maldini, que com quase 40 anos ainda levanta taças europeias com a mesma destreza com que o foi fazendo ao longo de uma brilhantíssima carreira.
Entre os ingleses Pennant fez uma primeira parte soberba, mas também Alonso e Kuyt poderam sair de cabeça bem erguida. Gerrard, que correu e batalhou muitíssimo, esteve sobretudo infeliz, pois nas três ou quatro ocasiões que teve de marcar, nunca conseguiu dar à bola o caminho das redes.
Do árbitro já ficou dito o essencial. Aliás, convém referir que os árbitros alemães não são nada do meu agrado. Já Markus Merk tem um estilo extremamente irritante para os adeptos (e certamente também para os jogadores), interrompendo o jogo por “dá cá aquela palha”, e estragando o espectáculo à boa maneira daquilo que frequentemente se vê em Portugal. Este Herbert Fandel segue a mesma cartilha – quase metade das faltas assinaladas não pareceram existir, entre as quais a que originou o primeiro golo.

PARA LAMPIÃO VER...

Se quiser recordar algumas das equipas do Benfica ao longo da sua história, visite "Equipas do Benfica", uma galeria de fotografias recheada de craques e recordações.

23/05/07

A GUERRA DAS ESTRELAS

A.C.Milan e Liverpool enfrentam-se hoje em Atenas naquele que é o jogo grande da temporada futebolística europeia e mundial: a Final da Champions League.
Apesar de, há um ou dois meses atrás, não serem eventualmente as equipas em quem os apostadores mais arriscariam – fruto do seu parco desempenho nas ligas domésticas –, estes dois colossos chegaram à final com todo o mérito, repuxando os galões de um historial que lhes valeu, em conjunto, onze (!) títulos europeus (seis aos transalpinos e cinco aos britânicos). Terá mesmo sido justamente essa, uma das razões a partir das quais acabaram encontrar forças para se superiorizar aos talvez mais mediáticos, mas muito menos vitoriosos, Chelsea (zero títulos) e Manchester United (dois títulos), numas meias-finais bastante equilibradas, e em que qualquer detalhe teria peso determinante.
Este desafio é também apimentado pela final de há dois anos em Istambul, em que os mesmos protagonistas proporcionaram ao mundo do futebol um dos mais apaixonantes espectáculos de que há memória na história recente da competição. Então o Liverpool levou a melhor, depois de estar a perder ao intervalo por 0-3, e ter chegado ao empate em apenas seis minutos, sendo depois mais feliz na taluda dos penáltis. Não deixa aliás de ser curioso que duas equipas conhecidas pela sua força defensiva tenham protagonizado tão empolgante final, salpicada com seis golos, algo que apenas 43 anos antes tinha sucedido (justamente desde que o Benfica-Real Madrid de 1962 terminou com um histórico 5-3). Esperemos que esse seja o tónico para o espectáculo de hoje, de forma a que a emoção e a qualidade possam voltar a estar presentes.
O Milan, para além do natural sentimento de vingança, parte com algum favoritismo para este jogo. Dispõe de melhores unidades individualmente (Gattuso, Pirlo, Maldini, Seedorf e sobretudo Kaká), e parece uma equipa um pouco mais madura que o seu adversário. Mas o Liverpool, muito bem orientado por Rafa Benitez (vencedor da Uefa em 2004 com o Valência, e da Champions em 2005, disputando a sua terceira final europeia em QUATRO anos – apenas o Benfica lhe estragou os planos na época transacta) tem uma forte palavra a dizer, sendo que, tal como os italianos, desde há vários meses que prepara meticulosa e exclusivamente esta competição – eis aqui outra razão para explicar o sucesso de ambos nesta edição.
No plano dos destaques individuais as atenções vão naturalmente para o brasileiro Kaká, um dos melhores jogadores do mundo da actualidade, e para Steven Gerrard, de perfil menos tecnicista, mas de igual modo influente na estratégia da sua equipa. Kaká tem neste jogo uma boa hipótese para se afirmar de modo decisivo como o principal candidato ao título individual de melhor do mundo, distinção que terá de disputar provavelmente com Cristiano Ronaldo lá mais para o final do ano.
É destes dois elementos que numa e noutra equipa naturalmente mais se espera, mas outros há que se poderão revelar determinantes no desfecho da final. Se na equipa de Ancelotti os já referidos Gattuso, Pirlo e Seedorf – guarda de honra perfeita para Kaká – se apresentam entre os mais influentes, no conjunto inglês os desempenhos de Xabi Alonso no meio campo e Dirk Kuyt no ataque merecem ser seguidos com atenção, seja pelo futebol cerebral de um ou pela mobilidade e agressividade ofensiva de outro.
Espera-se pois uma excelente partida, de acordo com o que esta competição nos tem habitualmente oferecido. Que ganhe o melhor !
Sob a arbitragem do alemão Herbert Fandel, as equipas deverão alinhar do seguinte modo:
MILAN - Dida, Oddo, Nesta, Maldini, Jankulovski, Ambrosini, Pirlo, Gattuso, Seedorf, Kaká e Inzaghi.
LIVERPOOL – Reina, Finnan, Carragher, Agger, Riise, Mascherano, Xabi Alonso, Gerrard, Zenden, Crouch e Kuyt.

BREVES

TAÇA DE INGLATERRA: A final por todos esperada foi um fiasco. O Manchester entendeu “descer” ao nível do feio e insosso futebol do Chelsea, para assim procurar derrotá-lo com as mesmas armas – leia-se, risco mínimo, calculismo, especulação. Deu-se mal, pois nesses territórios Mourinho é mestre.
BILHETES PARA O JAMOR: É inqualificável a acção da F.P.F. sempre que tem em mãos a atribuição de bilhetes seja para que for. Os “convidados”, os “patrocinadores” os “investidores” e outros parasitas não deixam espaço para os adeptos do futebol, com quem às vezes se parece já nem contar. Ao ver o sofrimento dos sportinguistas que naturalmente querem seguir a sua equipa, lembro-me do que passei há dois anos para conseguir um bilhete para o Benfica-V.Setúbal, pelo qual acabei por ter de pagar 50 euros na candonga. Lamentável !
TAÇA DA LIGA: Não sei se a voz grossa de Luís Filipe Vieira faz sentido nesta temática, mas o modelo de Taça da Liga proposto não lembra ao diabo, e nota-se que foi arquitectado por quem de futebol percebe pouco. Então aquela fase final a uma só mão… meu Deus !
PROFESSOR NECA: Teve o gosto feito ao ver o F.C.Porto campeão. Foi para a segunda divisão, e agora está sem emprego. Tem um perfil que não cabe na primeira divisão nacional, e demonstrou-o.
ZORO: Já havia sido referenciado em Janeiro, mas na altura não estava livre. É jovem e tem já alguma experiência do “Cálcio”, onde normalmente se defende bem. Parece ter tudo para ser uma boa aposta.
MICCOLI: Com o ordenado que aufere não parece viável a sua continuidade no Benfica. É pena.
LIGA ESPANHOLA: Ao rubro, com Barcelona e Real empatados em pontos a 3 jornadas do fim. A seguir com atenção.
FORMAÇÃO LEONINA: Miguel Garcia, Custódio e Carlos Martins estão de malas aviadas do Sporting. Nani pode ser o próximo a partir. Quantos jovens da cantera leonina ficarão na equipa para a próxima época ? Estou curioso.

22/05/07

...E DE TAÇAS

Como a final da Taça de Portual está à porta, recordemos também o ranking de troféus conquistados:

BENFICA 26, F.C.Porto 17, Sporting 17, Belenenses 6, Boavista 5, V.Setúbal 3, Sp.Braga 1, Académica 1, E.Amadora 1, Beira Mar 1, Marítimo 1, Olhanense 1 e Atlético 1.

NOTA: Inclui os Campeonatos de Portugal, prova antecessora da Taça de Portugal.

RANKING DE CAMPEONATOS

Terminada mais uma edição da Liga, importa actualizar a tabela de vencedores:

BENFICA 31, F.C.Porto 22, Sporting 18, Belenenses 1 e Boavista 1.
Realce para o facto de o F.C.Porto se ter nos últimos anos afastado do Sporting como segunda força futebolística do país, e também para a impossibilidade de Pinto da Costa fazer o seu clube atingir o número de títulos do Benfica, agora que anunciou o seu último mandato - seriam necessários mais nove anos, cem por cento vencedores, para que tal acontecesse.

BOLA QUADRADA

Que o F.C.Porto é o último campeão da Liga Portuguesa todos nós sabemos.
O que talvez nem todos saibam é que foi também o primeiro. Esta é a equipa que conquistou a primeira 1ª Liga em 1934-35.
Portanto, ainda Pinto da Costa não era nascido e já o Porto ganhava campeonatos...

21/05/07

HERÓIS !

Se aqui prestei homenagem a outros, ninguém me levará a mal que a preste também aos meus, justamente àqueles que me proporcionaram ontem a minha maior alegria desportiva de toda a temporada ao verem garantido o regresso à II Divisão: Juventude Sport Clube de Évora.
Em cima da esquerda para a direita: Cuca, Beto, Flávio, Monzelo, Moreno e Helder Monteiro.
Em baixo: Claudino, Valente, Paulo Letras, Ruben e Marçal.

PARABÉNS PORTO !

Como homenagem de VEDETA DA BOLA à equipa campeã nacional, aqui fica uma foto do onze que ontem entrou em campo para a última etapa da sua coroação.
Fica também a mensagem de que o futebol se torna ridículo quando as rivalidades se transformam em guerras, destituindo de toda a beleza, a genuina magia de um jogo apaixonante. Tudo isto é apenas um desporto. Um espectáculo. Um passatempo para todos nós que amamos a modalidade. Uns ganham outros têm de perder. É assim. Não há lugar a dramas, pois esses infelizmente são outros e de outras naturezas.
PARABÉNS CAMPEÕES !
VIVA O FUTEBOL !

VEDETA DA JORNADA

LISANDRO LOPEZ: Depois de uma temporada cheia de altos e baixos, o argentino acabou por ser a face do título portista dentro das quatro linhas, ao marcar dois importantes golos na festa do Dragão.

CLASSIFICAÇÃO "REAL"

Jornada calma e sem casos para terminar.
Infelizmente o vencedor desta classificação não coincidiu com o campeão, o que é de lamentar. Ficamo-nos por considerar o Sporting menos infeliz com as arbitragens (terá sido a mão de Ronny a fazer a diferença), sendo redutor atribuir a esse aspecto o desfecho do campeonato, e realçando o facto de numa prova tão equilibrada, isto poder suceder com naturalidade.
Fica a nota para o facto de, ao contrário do que por vezes o senso comum aparenta, os três grandes acabarem por ser todos eles mais prejudicados do que beneficiados. Nem sempre terá sido assim, mas esta temporada foi-o. Não é positivo, nem negativo, mas não deixa de ser curioso.
Fica a pontuação final:

SPORTING 72
F.C.Porto 71
Benfica 68

UM CAMPEÃO JUSTO COMO TODOS OS OUTROS

Uma equipa que termina uma prova de 30 jornadas com mais pontos que todos os outros é, seja em que circunstâncias for, um campeão justo. O F.C.Porto alcançou pois (como se aguardava) merecidamente um título que, não o esqueçamos, há uns meses atrás parecia entregue, e só pelos 16 pontos desperdiçados pelos portistas na segunda volta foi objecto de tanta luta final.
Se os portistas dominaram o primeiro terço do campeonato, o Benfica dominou o segundo e o Sporting o terceiro. No fim, dois pontos, ou um “cabelo”, a separá-los, o que deixa margem a todas as especulações - “se” não fosse o Bruno Moraes, “se” não fosse o Beira Mar, “se” não fosse a mão de Ronny, “se” Paulo Bento arriscasse mais na Luz, etc etc..
O facto do o Porto ser um campeão justo não pode pois retirar mérito às campanhas dos seus adversários, que por diferentes motivos poderiam ter justificado também a conquista do campeonato: o Sporting pelo exuberante fulgor que patenteou nas últimas 10 jornadas, e o Benfica pelos inúmeros azares que sobre si se abateram, e que tornaram a sua classificação final (a dois pontos do título) senão meritória, pelo menos honrosa, para mais sendo a equipa que mais se desgastou numa campanha europeia também ela infeliz e azarada.
No cômputo geral da competição, apesar de equilibrado, este campeonato esteve longe de ser brilhante. Equipas como o Boavista, Marítimo, V.Setúbal, Naval (na 2ª volta), U.Leiria, Nacional e Braga, para além dos que desceram, decepcionaram bastante, não oferecendo muita luta ao trio da frente. Os pontos perdidos pelos grandes foram quase sempre mais demérito seu que mérito adversário, e a nota dominante da maioria das jornadas foram as muitas facilidades concedidas aos candidatos ao título.
Como nota positiva restam o Belenenses e o Paços de Ferreira, únicas equipas que verdadeiramente seduziram.
Em breve será aqui feito um balanço mais completo sobre esta edição da Liga Bwin. Por agora resta dar os parabéns aos atletas e técnicos do F.C.Porto, bem como a todos os portistas.

HONROSA DESPEDIDA

Suponho que os 43 mil espectadores que se deslocaram à Luz o tivessem feito com o mesmo estado de espírito que eu próprio o fiz: despedirem-se da equipa e despedirem –se de futebol por uns meses.
De facto, poucos seriam seguramente aqueles que esperavam mais alguma coisa desta jornada. O Porto jogava em casa, num ambiente frenético, com o último classificado, e o Sporting recebia um Belenenses com a cabeça e as energias depositadas na final da Taça da próxima semana. Só um verdadeiro milagre tiraria o Benfica na sua classificação, pelo que a ansiedade para esta partida era absolutamente nula.
Não é ainda o momento para aqui avaliar a época benfiquista – fá-lo-ei certamente em breve – mas não posso deixar de lembrar os 67 pontos (e os 21 jogos sem perder, série que se mantém em aberto) que a equipa de Fernando Santos alcançou, mesmo mergulhada num mar de lesões, mesmo com o desgaste das competições europeias onde bateu o recorde de número de jogos numa época, mesmo com uma pré-época desadequada onde pagou o preço de ter tido muitos jogadores no Mundial, para além de algumas indefinições num plantel curto e desequilibrado, as quais ainda resultaram acentuadas por uma má abordagem ao mercado de inverno.
Santos não merecia portanto os assobios que alguns “adeptos” insistem em lhe devotar, acabando por terminar o campeonato com três vitórias consecutivas, obtidas por uma equipa desfalcadíssima – ontem faltaram Luisão, Petit, Simão e Nuno Gomes (!!).
O jogo não teve muita história. Derlei conseguiu o justo prémio por aquilo que tem passado e a que, ao que parece, tem reagido com extremo profissionalismo. Mantorras fechou a festa.
Pelo meio houve futebol agradável, e uma despedida sentida de um dos mais queridos da bancada: Miccoli.Pontuação: Quim 4, Nelson 3, David Luiz 3, Anderson 3, Leo 3, Katsouranis 3, Karagounis 4, Paulo Jorge 2, Rui Costa 3, Derlei 3, Miccoli 3, Manu 3 e Mantorras 3. Melhor em campo: Karagounis.

GLÓRIA JUVENTUDISTA

Foi a poucos minutos do início do jogo da Luz, já em pleno estádio, que pelo telefone soube da notícia: o Juventude de Évora, oito anos depois, voltou à II divisão.
Era necessária uma escorregadela do Amora no Algarve e ela sucedeu. Um empate 0-0 foi tudo aquilo que o clube eborense, que folgava nesta última jornada, necessitava para fazer a festa. 2º lugar na série F e subida de escalão.
Como homenagem à equipa que brilhantemente alcançou este objectivo, recolocando o clube no lugar que o seu historial justifica, deixo os nomes de todos os jogadores que para isso contribuíram: Cuca, Gonçalo, Mário Almodôvar, Farinha, Claudino, Flávio, Paulo Letras, Moreno, Pedro Soares, Monzelo, Beto, Queiroz, Ruben, Filipe Abrantes, Freddy, André Martinho, Luís Mocho, Rui Benavente, Dieb, João Pinto, Felisberto, Hélder Monteiro, Miguel Barros, Valente, Edinho, André Flores, Henrique e Marçal.
A todos eles, bem como aos técnicos Miguel Ângelo e Óscar Tojo, ao director Jerónimo Estudante, ao presidente Amadeu Martinho, e a todo o staff do clube, ficam os parabéns de VEDETA DA BOLA, e os votos que a próxima época nos possa oferecer novas alegrias.

18/05/07

BOLA QUADRADA

Nasce hoje uma nova rubrica neste espaço.
"Bola Quadrada" vai viajar no tempo e mostrar-lhe imagens antigas do nosso desporto-rei.
Para começar, eis um dos primeiros Benficas-Sportingues de sempre. Os dois capitães (Cosme Damião e Francisco Stromp ?) escolhem campo perante um árbitro equipado a rigor.

17/05/07

O QUÊ ??!??

É verdade que o campeonato está futebolisticamente decidido. Mas para a Liga, enquanto a matemática o permitir, há a obrigatoriedade de manter todo o rigor, em nome da credibilidade da competição.
Não se percebe se a lógica foi escolher um figurante para a festa do Dragão - e neste caso a escolha seria acertadíssima - ou se se trata de outro qualquer motivo menos festivo.
Nomear este homem para apitar o jogo que pode valer o título ao F.C.Porto é gozar com quem andou toda a época a assistir a jogos, quer em estádios quer pela tv, é gozar com os clubes envolvidos na luta pelo campeonato, é, em suma, gozar com o futebol português.

BEM ENTREGUE !

Ao contrário do que tenho ouvido, não me parece que a final da Taça Uefa tenha sido um mau jogo de futebol. Pelo contrário, foi uma partida intensa, a espaços bem jogada, emocionante e com quatro golos. Que mais se pode pedir a uma final ?
A dramática decisão por grandes penalidades acabou por sorrir à melhor equipa, justamente aquela que desde o início mais procurou a vitória. O Espanhol dominou a primeira meia hora da segunda parte (até à expulsão de Moisés), mas de resto apresentou o mesmo futebol irritante com que eliminou o Benfica: pausado, muito físico e procurando com cinismo a felicidade no contra-ataque, o que, diga-se, não fosse a inspiração de Palop - defendeu três (!) penáltis -, quase podia ter chegado para levantar um troféu europeu.
O Sevilha, embora demonstrando algum cansaço, foi capaz de empurrar o adversário para a sua área, sobretudo quando se viu em superioridade numérica, altura a partir da qual dominou totalmente o jogo. O golo de Jonatas caiu então como uma dádiva dos céus para a equipa catalã, permitindo-lhe chegar a um desempate que não merecia e já nem sequer esperava ser possível, fugindo-lhe então a sorte que a havia amplamente bafejado durante alguns momentos do seu percurso na prova.
A equipa de Juande Ramos, depois de já ter conquistado a Uefa anterior em Maio de 2006, e de em Agosto ter vencido a Supertaça Europeia, pode realizar uma época absolutamente histórica, pois está a dois pontos da liderança da Liga Espanhola e está na final da Taça do Rei onde defrontará o Getafe. Este verão terá nova Supertaça Europeia e provavelmente também a espanhola, para juntar a uma lista que se poderá extender até ao inimaginável.
Ao ver os jogadores do Espanhol estendidos no chão e lavados em lágrimas, lembrei-me do sofrimento que já esta época causaram aos benfiquistas - para mim pessoalmente, foi a derrota mais dura dos últimos anos -, e não fui capaz de resistir a um pequeno sentimento de vingança. De facto, Deus não dorme...

15/05/07

ROCHEMBACK ? NÃO OBRIGADO !

Embora o salário de Fábio Rochemback se apresente proibitivo para qualquer clube português, nos últimos dias o jogador do Middlesbrough tem sido insistentemente dado como próximo do Benfica.
Seria esta contratação, a concretizar-se, uma boa notícia para os encarnados ? Não creio.
Rochemback, não pondo em causa as suas capacidades, é o tipo de jogador que está na antítese daquilo que o Benfica necessita para inverter o ciclo derrotista que parece ter tomado de novo conta do clube. Se Derlei foi um fiasco - e tratava-se de um jogador com um passado imaculado no F.C.Porto, onde sempre primou pela disciplina, pelo profissionalismo e, talvez por isso, também pela regularidade competitiva - que esperar de um jogador caríssimo, aburguesado, pouco disposto a grandes sacrifícios, amante da noite, capaz de insultar o próprio treinador perante as câmaras de televisão e propício a potenciar algum mal estar no balneário ?
O Benfica, este Benfica, precisa urgentemente de jogadores jovens e ambiciosos, com a carreira pela frente, que possam constituir mais valias para o clube depois de (pelo menos) dois ou três anos de utilização, e que contribuam para uma equipa coesa, combativa, capaz de deixar a pele em campo na luta por cada lance. Foi com uma base constituida por jogadores assim que o Benfica conquistou o seu título de há dois anos (já sairam Manuel Fernandes, Miguel, Ricardo Rocha, entre outros; continuam Petit, Luisão e Simão). Era essa a filosofia que parecia ter vindo para ficar, mas que depressa se desvaneceu, enveredando-se por um caminho de contratações avulso, sem critério, para agradar aos mais desprevenidos, e sobretudo aos intermediários que com elas lucram milhões.
O plantel actual do Benfica já tem demasiados jogadores com rendimento competitivo insuficiente - uns por questões físicas, outros não se sabe bem porquê. Tem demasiados jogadores demasiadamente bem pagos, aspecto que pode muito bem estar relacionado com o anterior. Estrelas da imprensa que por vezes pouco brilham nos relvados - que diriam os jornais desportivos de Adriano, se este jogasse no Benfica ? .
O Benfica precisa, como de pão para a boca, de humildade, ambição, raça, combatividade, empenho, luta. É dessa massa que se fazem os campeões, sobretudo quando não se tem dinheiro para comprar Cristianos Ronaldos, Kakás ou Messis. Rochemback tem talento, tem experiência, mas faltam-lhe muitos dos aspectos que acima referi. Além de que contratações como esta acarretam danos colaterais na morfologia competitiva de todo um plantel. Significam um caminho profundamente errado. Depois há também algo que faz pensar: para um jogador cujo salário se diz rondar os 270 mil euros /mês, o que ganhou ele na sua carreira ? que títulos ganhou no Sporting ? e no Middlesbrough ?
Não é pois Rochemback que vai fazer a diferença no Benfica, nem é com Rochembacks que o Benfica poderá alguma vez sair do mar de equívocos em que parece cada vez mais navegar. Aliás, enquanto Rochemback se diz negociar com o Benfica, e enquanto os mercados nórdico e de leste parecem ter sido totalmente abandonados, Ruben Amorim e Rolando têm um pré-acordo com o F.C.Porto, Andrés Madrid e Filipe Teixeira possivelmente também, Dady está a caminho do Bétis, Tiago Gomes está esquecido na Reboleira, e muitos outros jovens de qualidade do nosso campeonato vão passando ao lado do interesse de um clube ao qual tanto jeito fariam. Não proporcionavam era seguramente comissões tão chorudas como os negócios tipo-Rochemback...

14/05/07

VEDETA DA JORNADA

ADRIANO: Liedson leva 14 golos, mas Adriano, que só jogou meio campeonato leva 10, muitos deles decisivos. Não terá feito uma grande exibição na Mata Real, mas fica uma vez mais ligado a um momento decisivo da carreira do seu clube, depois de na temporada passada ter marcado o golo solitário do título em Penafiel, o da Taça no Jamor, e já a abrir a recente época, o da Supertaça. É um homem para os grandes momentos, e fica-se incrédulo quando se sabe que esteve para ser dispensado.

CLASSIFICAÇÃO "REAL"

À parte um lance duvidoso na área do Sporting protagonizado por Liedson, nada mais de relevante ocorreu nesta jornada em termos de arbitragem.
Segue assim a classificação, com a particularidade de o Sporting, com o empate do Porto, ter ascendido ao primeiro lugar. Podem pois queixar-se os leões de, no deve e haver dos erros dos árbitros, terem acabado por sair prejudicados ao longo da época. Pelo menos até agora…

SPORTING 69
F.C.Porto 68
Benfica 65

EMOÇÕES À SOLTA, NUMA LIGA QUASE DECIDIDA

Foi uma jornada de emoções fortes no que diz respeito à luta pelo título, emoções essas recrudescidas, diga-se, pelo facto de os regulamentos obrigarem a fazer coincidir os horários dos jogos nestas últimas duas rondas, mais do que propriamente pelo desenvolvimento dos mesmos – podendo-se aquilatar daqui também, o que seria um campeonato disputado à moda antiga com os jogos todos ao domingo pelas 15.00 h.
Na verdade, esta era a jornada em que algo de significativo podia ter acontecido. Assim não foi, e com franqueza não vejo outra possibilidade que não o F.C.Porto sagrar-se campeão no próximo domingo. Mas não deixa de ser curioso que nesta mesma ronda, a única equipa que garantiu os seus objectivos, alcançou-os perdendo em casa, a Académica. Dos três grandes nenhum conseguiu aquilo que queria: o Porto pretendia festejar o título, o Sporting assumir a liderança, e o Benfica alcançar o 2º lugar. Sorrisos amarelos para todos eles.
Durante quase uma hora o Sporting foi o virtual líder da prova, chegando a ameaçar partir para a última jornada com o título no bolso, algo que não estaria nas previsões de ninguém quando há meia dúzia de semanas atrás chegou a levar nove pontos de atraso do líder dragão.
Marcando novamente e de forma inacreditável nos primeiros três minutos – estranho caso este, o de uma equipa que marca golos supersónicos em cinco jogos consecutivos, sendo que aos três minutos, em teoria, nunca alguém merece estar em vantagem -, os leões podiam ter resolvido a questão pouco depois, quando beneficiaram de uma grande penalidade que Liedson desperdiçou. Isso podia-lhes ter custado caro, pois durante um largo período da segunda parte foram os da casa que mais ameaçaram um golo que, título à parte, teria consequências directas também na questão do 2º lugar.
O F.C.Porto por seu lado penava em Paços de Ferreira, onde durante muito tempo denotou uma incapacidade total de dar a volta a um texto que teimava em não lhe sorrir. Foi uma vez mais o salvador Adriano, com um golo providencial, a permitir aos dragões segurarem a liderança e reafirmarem-se como os grandes favoritos ao ceptro nacional, que pode vir a ser merecido se tomarmos em linha de conta o que se passou na primeira volta, mas pela segunda ficaria bem melhor noutras mãos – sendo que neste particular o Sporting se mostrou bem mais à altura das circunstâncias.
À mesma hora, o Benfica arrastava-se de forma pachorrenta em Setúbal numa partida na qual, quer benfiquistas, quer setubalenses, poucas esperanças pareciam depositar, bastando para isso deitar um olho às desertas bancadas do Bonfim (que raio de nome…). Miccoli acabou por dar sequência ao seu bom momento de forma, arrancando o golo de uma vitória que, tendo o condão de poder fazer os mais líricos sonhar com um milagre na próxima semana – mau grado o 13 de Maio ter sido ontem -, pode, de forma mais realista, permitir encarar com ténue mas legítima esperança a possibilidade de acesso directo à Liga dos Campeões, caso o Belenenses mostre em Alvalade os argumentos que fizeram dele uma das mais fortes equipas da liga, e não se limite a rodar jogadores e esconder estratégias com vista à final da Taça de Poertugal.
Não há muito para contar sobre um jogo onde pouco ou nada se passou, a não ser o golo, um ou outro pormenor do “Pequeno Bombardeiro”, e as já quase tradicionais falhas de Derlei. O Benfica espera ansiosamente por férias, onde jogadores e técnicos poderão meditar sobre o que aconteceu, mas é bom que a Direcção permaneça bem activa, pois o trabalho a fazer é muito na mesma medida em que pouca é a sua margem de erro – e para já, declarações avulsas feitas na sobremesa de jantares em Casas do Benfica responsabilizando indirectamente quem menos culpas tem, não são um bom ponto de partida.
Para efeitos meramente estatísticos ficam as pontuações aos homens da Luz: Quim 3, Nelson 3, David Luíz 3, Anderson 3, Léo 3, Petit 3, Katsouranis 2, Karagounis 4, Rui Costa 3, Miccoli 4, Derlei 2, Paulo Jorge 1, Mantorras 1 e, João Coimbra -. Melhor em campo: Fabrizio Miccoli.
Agora vem aí a última jornada, que a comunicação social está a promover como se de uma dramática incerteza se tratasse, mas que na verdade poucas dúvidas deixa relativamente aos primeiros lugares – esta penúltima jornada sim, tinha alguns pontos de possível aquecimento, como já referi e como se demonstrou.
Se nada de anormal suceder na próxima semana, Porto será campeão, Sporting será segundo e Benfica terceiro. O que quer que aconteça de diferente disto será sempre um enorme golpe de teatro, daqueles que, diga-se, a história do futebol português não é muito pródiga. Na verdade, alguém acredita que o F.C.Porto, na eminência de festejar um título, com o seu estádio completamente cheio, vá ceder em casa perante o modesto Desportivo das Aves, que ainda este domingo perdeu em casa com o Estrela da Amadora um jogo que o podia deixar a salvo da descida ? Certamente que não. Assim como ninguém vê o Sporting - clube que parece festejar como nenhum outro os seus segundos lugares, ao ponto de alguns adeptos assumirem a preferência por dois 2ºs lugares em vez de um 1º e um 3º - a vacilar perante um Belenenses certamente mais preocupado com a Taça de Portugal. O Benfica vai ter uma triste e enfadonha despedida, perante uma Académica já de férias.

...E A MONTANHA PARIU UM RATO

Com um empate a zero, Juventude e Lusitano deixaram o seu futuro adiado para a próxima e última jornada no nacional da III divisão, e, pior que isso, deixaram-no nas mãos de terceiros.
Se o Lusitano vai jogar e terá de ganhar - esperando que alguns dos seus adversários directos percam pontos - o Juventude nem isso, pois será já de férias (folgam na última jornada) que jogadores e técnicos irão seguir com atenção o jogo Almansilense-Amora, em que qualquer resultado que não seja uma vitória dos forasteiros lhes garantirá a almejada subida de divisão.
Tudo poderia ter sido diferente se uma das três bolas que bateram nos ferros da baliza verde e branca, todas elas na primeira meia-hora, tivesse entrado. Ou mesmo se o influente Monzelo não tivesse visto o cartão vermelho quando faltava ainda bastante tempo para jogar, obrigando o Juventude a jogar todos esses minutos (cerca de vinte) com menos uma unidade, aspecto que se revelou devastador para uma equipa que até então dominava por completo as operações.
Seria de temer alguma ansiedade, tal a importância do jogo. Isso não sucedeu, pois o Juventude apresentou-se francamente confiante, disputando cada bola como se da própria vida se tratasse, atacando com alma e critério, e causando pânico junto da baliza de Panaça. O Lusitano procurava em contra-ataques venenosos criar perigo, e com isso ganhava o espectáculo que, durante muitos minutos da primeira parte, chegou a ser empolgante.
Na segunda parte o Juventude voltou a entrar bem, empurrando o Lusitano para o seu reduto defensivo. Os azuis e brancos foram conquistando pontapés de canto em série, embora sem causar o perigo que haviam criado na primeira parte. .
Depois aconteceu a expulsão de Monzelo, e a partir daí o Juventude positivamente “morreu”. O técnico Miguel Ângelo arriscou tudo, como lhe competia e se justificava, jogando os últimos minutos com apenas três defesas para três avançados do Lusitano. Mas a aposta não surtiu grandes efeitos, pois a equipa também já não mostrava forças para dar a volta ao seu destino, não mais incomodando o reduto do Lusitano, salvo num lance em que Valente se isolou e rematou forte mas Panaça conseguiu defender com brilhantismo. Os verde e brancos, então sim, procuraram também vencer o jogo, quase o conseguindo numa bola devolvida, também ela, pela trave.
O público, que encheu o estádio juventudista como há muito se não via, bem merecia a festa que se aguardava. Apoio não faltou e vontade também não. Mas as bolas só contam dentro das balizas, e de facto, desde cedo se percebeu que a Senhora de Fátima não estava muito virada para as cores juventudistas neste 13 de Maio de má memória.
No final o sentimento de frustração era generalizado, pois quem lutara assim merecia maior dose de felicidade.
Há que esperar pela última jornada, torcer pelo Almansilense (que precisa de pontos para a manutenção), e desejar que se escreva por linhas tortas aquilo que se não lavrou nas direitas.
Resta saber também se o Amora, mergulhado no caos financeiro e administrativo, com várias rescisões de contrato ao longo da temporada e até uma falta de comparência, estará muito interessado em aproveitar a oportunidade que se lhe depara para ascender a um escalão onde necessariamente as despesas serão maiores.
No domingo se saberá.

12/05/07

MEMÓRIA AZUL E BRANCA - Os Anos Dourados do Juventude de Évora

O Juventude de Évora está a um passo (uma vitória) de regressar à II divisão. Num momento como este, assaltam-nos a memória outras eras, em especial as várias ocasiões em que o clube esteve à beira de subir, mas…à I divisão nacional, sem que infelizmente alguma vez o tenha conseguido. Apesar da mágoa e da decepção que cada um desses episódios originou na altura, eles são, inegavelmente, os pontos altos do historial deste grande clube alentejano. VEDETA DA BOLA, em semana que “tirou” para dar destaque ao "derby da década" em Évora, aproveita a circunstância para deixar aqui uma súmula daqueles que foram alguns dos momentos mais importantes da história do Juventude, tanto quanto a memória (minha ou de outros) o permite, agradecendo desde já a todos os que possam corrigir ou acrescentar algo aos dados que aqui estão apresentados.
O destaque vai naturalmente para o final dos anos setenta e principio de oitenta, altura em que, estando a ainda a despertar para o futebol, me tornei eu próprio juventudista, em parte à conta de tanto sofrimento nas dramáticas lutas pela subida à primeira divisão. Mas antes disso, já muita água correra debaixo da ponte deste rio. E muita correrá ainda daqui em diante, assim acredito e espero.

É difícil conhecer em rigor tudo aquilo que se passou em tantos anos de história (já lá vão oitenta e oito), que se começou a escrever nos antigos campeonatos regionais, e teve sequência em várias décadas de campeonatos nacionais das II e III divisões. Há todavia uma temporada, e em particular um jogo, que se pode destacar na história da velha rivalidade com o Lusitano, e que ainda hoje é recordado por quem o viveu, marcando (suponho) a primeira ocasião em que a equipa azul e branca esteve perto da glória da divisão maior.
Em 1951-52, Juventude e Lusitano disputavam o acesso à segunda fase do campeonato, que podia proporcionar a subida à primeira divisão - na altura a segunda divisão era disputada em três fases. O Juventude, campeão nacional da III divisão na época anterior, tinha uma equipa fantástica, onde actuavam o ex guarda-redes do Benfica Rogério Contreiras, bem como Casimiro, Lampreia, Buccheli, Pinto de Almeida, Jorge Mendonça e Passos entre outros, era a chamada equipa maravilha. No Lusitano actuavam também elementos de grande valia, não fosse essa a base da equipa que acabou por fazer furor na sua chegada ao primeiro escalão.
No Sanches de Miranda, ainda sem relva, os rivais disputaram uma das mais empolgantes partidas de sempre entre eles. Ao intervalo o Lusitano vencia por 1-4. Na segunda parte, uma extraordinária recuperação dos da casa levou o resultado até 4-5, beneficiando então de um penálti nos últimos instantes da partida, quando Jorge Mendonça foi agarrado pela cintura dentro da área verde e branca. O penálti foi convertido e o Juventude conseguiu uma espantosa igualdade 5-5, que então lhe permitia continuar a acalentar esperanças de apuramento.
Muito polémica foi a arbitragem, pois um dos golos do Lusitano terá resultado de uma grande penalidade mal assinalada - era abundante a especulação sobre a influência que o homem forte do Lusitano, o então todo poderoso governador civil de Évora, com fortes ligações à PIDE, tinha sobre as arbitragens.
Esse campeonato terminaria com uma igualdade de pontos entre ambos (28 pontos em 18 jogos), e vantagem para o Lusitano no número total de golos marcados (66 contra 64 do Juventude) – no confronto directo também existiu uma igualdade absoluta, pois no Campo Estrela dera-se outro empate, este a três golos.
O Lusitano apurou-se para a segunda fase, onde conseguiria juntamente com o Vitória de Setúbal o acesso à fase nacional, que venceu tornando-se campeão nacional da II divisão, e ascendendo ao escalão maior, onde ficaria por 14 anos consecutivos, e chegaria a alcançar um 5º lugar, venceria num também célebre jogo o Benfica por 4-1, e faria brilhar homens como o guarda-redes Dinis Vital, os defesas Falé e Paixão, o médios José Pedro e os avançados Pepe e Patalino, entre muitos outros.
Na temporada seguinte, o Juventude esteve ainda mais perto da glória. Desta vez, estavamos em 1952-53, venceu mesmo a sua zona (com 14 vitórias e dois empates em 18 jogos) e apurou-se para a tal segunda fase. Todavia aí, uma vez mais não foi feliz, sendo ultrapassado in-extremis por Oriental e CUF (perdeu todos os jogos fora, e cedeu um empate em casa perante os de Marvila, vencendo as restantes duas partidas), quedando-se no 3º lugar e assim fora da corrida.
Em 1953-54, enquanto o Lusitano já brilhava no escalão máximo, a equipa azul e branca continuava a tentar a sua sorte. O modelo do campeonato foi alterado, passando a existir apenas três zonas, e apenas uma fase final em sistema de poule com a participação dos dois primeiros de cada uma das zonas, a partir da qual, em seis, subiriam os três primeiros.
O Juventude ficou em segundo lugar na zona Sul com 31 pontos em 22 jogos, apurando-se assim para a fase final nacional, onde todavia não foi além do 5º lugar (em seis), sendo batido por CUF, Torreense e Sporting de Espinho. Só nos anos setenta o Juventude voltaria a estar próximo da subida.
Depois de algumas épocas discretas no segundo escalão - apimentadas com um 4º lugar em 1957-58, justamente um ano depois do Lusitano ter ficado em 5º, mas na I divisão -, os eborenses tombariam para a III divisão em 1961, de onde só voltaram após o 25 de Abril. A revolução marca aliás, de forma clara, uma inversão de forças no futebol eborense - queda competitiva do Lusitano, e robustecimento do rival Juventude. Após o regresso (justamente em 1974), depois de dois 12ºs lugares, o Juventude partiu para os anos eventualmente mais cintilantes do seu historial.

Em 1977-78, efectivamente, a equipa azul e branca esteve a um minuto (!) do escalão maior.
Uma equipa de onde haviam saído o goleador Pereira (para o Lusitano), bem como o guarda-redes Marcos, e ainda Mulatinho, Humaita, Zinho, Mitó e Torres, resultou todavia reforçada com a aquisição de elementos de grande qualidade como o guardião do primodivisionário Atlético Lapa, o ex sportinguista e internacional Fernando Peres, que seria jogador-treinador, e o ponta-de-lança do Portalegrense Arnaldo José. Era uma equipa bastante coesa, e que realizou um campeonato extremamente regular, no qual quase nunca largou a luta pelos primeiros lugares.
Depois de ter terminado em segundo lugar a dois pontos (a duas jornadas do fim a distância era apenas de 1 ponto, mas uma derrota no Montijo na última jornada selou as contas finais) do Barreirense de Jorge Martins, Frederico, Araújo e Carlos Manuel - mesmo vencendo os dois jogos com a equipa da margem sul, 2-0 em Évora na primeira jornada, e 1-0 a abrir a segunda volta no D.Manuel de Mello -, o Juventude apurou-se para a então liguilha de promoção, onde defrontou os segundos classificados das zonas centro (Académico de Viseu) e norte (Aliados de Lordelo), para definir o quarto novo primodivisionário.
Nessa pequena competição a três, a equipa eborense chegou à penúltima jornada, e seu último jogo (no mal fadado dia 10 de Junho de 1978), apenas com necessidade de empatar em terras de Viriato para subir à primeira divisão – perdera em Lordelo por 1-2, e vencera em casa os do norte por 4-0 (numa tarde inspirada de Jerónimo que fez um hat-trick) e os do centro por 3-2. Aos 89 minutos do jogo de Viseu registava-se uma igualdade a um - tendo o golo do Juventude sido apontado por Fernando Peres. Todavia, num lance ensombrado pela polémica, os viseenses marcaram o golo da vitória por intermédio de Penteado nos derradeiros instantes, lavando em lágrimas toda uma cidade que escutava, junto à antiga sede no Páteo do Salema, o relato da partida.
O Juventude mantinha ainda as esperanças, pois se na última jornada o Académico de Viseu perdesse em Lordelo, eram os alentejanos que subiam. Isso não se verificou, embora uma vez mais tenha sido a polémica a conduzir o Académico ao empate a um, depois de ter estado a perder durante muitos minutos.
O sonho foi-se, mas ficaram na história do clube esses homens que tão perto estiveram de o concretizar. A equipa tipo juventudista era constituída por Lapa, Modas, Ricardo, Fernando Sousa, José Luís, Ferro, Lelo, Peres, Arnaldo José, Edmilson e Jerónimo (melhor marcador da equipa com 21 golos). Jogavam também frequentemente Teles, Artur, Johny e Cila. O guarda-redes suplente era o histórico Antoninho.
Que me perdoem o apontamento auto-biográfico, mas esta época o Juventude, tendo falhado a subida, ganhou um novo adepto.
Tinha eu oito anos e o meu pai levou-me ao derby com o Lusitano no Sanches de Miranda. À partida para este jogo, ainda clubisticamente indefinido, recordo-me de pensar para mim próprio que a equipa que o vencesse teria o meu apoio para sempre.
Por volta dos 70 minutos de jogo, com o resultado ainda empatado a zero, Jerónimo recebeu a bola na área vinda do lado esquerdo, e atirou para o fundo da baliza de Gomes (do lado do então futuro campo de treinos). Estava feito o tento da vitória azul e branca.
Quando se deu o episódio de Viseu, já as minhas lágrimas se juntavam à dos maiores juventudistas…
O Lusitano desceria à III divisão nessa temporada (pela terceira vez no seu historial, as outras tinham sido episódicas e no início da década), mau grado ter uma equipa recheada de nomes sonantes como Gomes, Simplício, Leonel, Zambujo, Quim, Pereira, Fernandes (todos eles ex ou futuros juventudistas), e ainda Matine (ex Benfica), Gerúsio, Hilton, Cícero, José Chico e Hélder. Nos derbys, para além do 1-0 de que falei, no Campo Estrela aconteceu um empate a um golo.

Quis o destino que no ano imediato o Juventude voltasse a estar muito perto da tão almejada subida.
Para 1978-79, a direcção azul e branca investiu fortemente na sua equipa. Beneficiando da venda do esquerdino José Luís - foi para o Vitória de Setúbal e chegaria mais tarde a ser titular do F.C.Porto, em 1980-81 com Hermann Stessl – e do avançado Jerónimo, o Juventude adquiriu vários jogadores de grande categoria, formando uma equipa que talvez não tenha subido por ser desadequada do nível da II divisão. Na verdade era uma equipa de primeira, e talvez não seja exagero dizer que estaria entre as dez ou doze melhores equipas de futebol do nosso país. Mantendo o técnico, para se juntarem aos restantes jogadores da época anterior chegaram ao Juventude: o excêntrico guarda-redes Gomes e o lateral Simplício (ambos ex Lusitano), o central Barrinha (jogara no União de Tomar e seguiria depois para o Vitória de Guimarães), os médios Cardoso (ex Atlético) e Jorge Jesus (esse mesmo, actual treinador do Belenenses, e ex jogador do Sporting, União de Leiria e Estrela da Amadora), o ala Luís Filipe (ex Atlético, sendo de lembrar que o Atlético tinha então descido havia uma época da primeira divisão), o avançado brasileiro Dário (ex Feirense, e futuro jogador do Vitória de Setúbal, onde chegaria a marcar golos ao Benfica e ao F.C.Porto) e o avançado, também brasileiro, Nivaldo.
A equipa tipo seria então Lapa, Simplício, Ricardo, Barrinha, Modas, Cardoso, Jesus, Luís Filipe, Arnaldo José, Edmilson e Dário.
O Juventude fez uma época fantástica, somando inclusivamente mais pontos que no ano anterior (41 em 77-78 e 44 em 78-79), e marcando 65 golos em 30 jogos, de onde avultaram impressionantes goleadas como os 6-1 ao Odivelas logo na primeira jornada e 5-0 ao Seixal. O futebol que praticava era apaixonante, e só um pequeno pauzinho estragava a engrenagem: havia também um Portimonense de luxo.
Efectivamente, apostada no rápido regresso ao escalão maior, a equipa algarvia contava com um plantel fabuloso, que aliás foi a base da sua equipa nos anos seguintes, nos quais se manteve na ribalta do futebol nacional. A sua grande força estava também no sector ofensivo, onde os dois Nelsóns eram uma fábrica de fazer golos. Nelson Fernandes, ex Benfica, ex Sporting, com muitos anos de futebol nacional e internacional de topo, era a experiência que compensava a juventude do ex júnior do Benfica e, na altura, grande promessa do futebol português, Nelson Moutinho, precisamente pai de João Moutinho actual médio do Sporting e da selecção nacional. Atrás deles, no meio campo, actuava o brasileiro Paulo Campos, grande goleador também, que em 1981-82 jogaria no Benfica, chegando a participar em jogos da Taça dos Campeões Europeus. Na baliza estava Pinhal, ex Sporting, e na defesa Mota também recrutado aos leões.
Nos jogos entre Juventude e Portimonense os eborenses levaram vantagem. Triunfando por 1-0 em Évora, numa tarde de Novembro e de casa cheia, com um golo de Dário aos 70 minutos num pontapé de fora da área, parecido com o golo de Nuno Gomes à Espanha no Euro 2004, marcado na baliza do lado da rua, a equipa alentejana arrancou um empate a zero em Portimão já em plena segunda volta, jogo que fez deslocar centenas, senão milhares de juventudistas ao Algarve.
Todavia, em termos globais o Portimonense acabou por levar a melhor, garantindo uma vantagem de três pontos após uma inesperada derrota do Juventude em Sarilhos Grandes por 3-0, vantagem essa que não mais perderia até ao fim. O Juventude ia portanto estar novamente na Liguilha.
Uma vez mais a equipa eborense entrou com o pé esquerdo nessa dramática prova que animava ano após ano os finais de época por essa altura. Na primeira jornada em Santa Maria de Lamas não conseguiu evitar uma copiosa derrota por 4-0 frente ao União local que não deixava bons augúrios. Todavia a equipa recuperou e venceu em casa o Rio Ave por 3-0.
Na jornada seguinte, em jogo que recordo como se fosse ontem, o Juventude comprometeu as suas aspirações ao ceder uma igualdade a zero frente ao Lamas, que contudo ainda deixava algumas esperanças para a última jornada, onde em Vila do Conde o Juventude, caso vencesse, asseguraria a subida.
Era difícil pois o Rio Ave, onde jogavam Alfredo, Adérito, Trindade, Mário Reis, Baltemar Brito (adjunto de Mourinho no Chelsea) e o avançado N’Habola também precisava de vencer e jogava em casa, sendo o grande favorito à subida.
Mais difícil ficou o panorama quando Cardoso, com o resultado em branco, desperdiçou uma grande penalidade, facto que muita tinta fez correr nos tempos seguintes, sendo a equipa acusada de não ter querido subir de divisão, numa altura em que, recorde-se, o maná das transmissões televisivas ainda não fora descoberto, e a divisão principal criava dificuldades financeiras que nem todos estavam preparados para enfrentar.
O resultado foi uma derrota por 1-0, e a festa vilacondense.
Nesta temporada os únicos derbys foram para uma denominada Taça Amizade, e culminaram em vitórias dos azuis e brancos por 2-1 em casa e retumbante 1-4 num Campo Estrela cheio.

Na época 1979-80 deu-se uma razia no plantel com as saídas de Barrinha, Cardoso, Luís Filipe, Dário, Jesus, Nivaldo, mas também de Lapa e Edmilson. As contratações de Pinto (ex-V.Setúbal), Galhofas e João Santos (ambos ex-Benfica), Pedro Paulo (ex-Ac.Viseu), Edvaldo e Bolota (ex-Montijo) tardaram a surtir o efeito pretendido, e a equipa foi-se afundando na tabela, com várias derrotas consecutivas e de lanterna vermelha nas mãos.
Como sucede nestas ocasiões, foi Fernando Peres o primeiro a pagar a factura, sendo substituído pelo eborense, ex guarda-redes do Lusitano e futuro técnico do Farense na primeira divisão: Dinis Vital.
As melhorias foram notórias, com uma espectacular recuperação que, levando a equipa ao sexto lugar chegou a lançar a esperança de nova Liguilha (o primeiro lugar cedo ficou entregue ao Amora, que me lembro de ver ganhar em Évora por 0-3, numa tarde de glória para o avançado Tateu autor de dois golos). Mas alguns empates incómodos empurraram o Juventude para o 9º lugar final.
Nesta temporada a representatividade do futebol eborense ficou a cargo do Lusitano, que chegado da terceira divisão, onde em 1978-79 tinha sabido reconquistar o seu lugar, acabou por conseguir um surpreendente 2º lugar, alcançado in-extremis, após vitória retumbante por 0-3 na última jornada em Sacavém (depois de triunfo por 3-1 em Évora diante do Barreirense), numa verdadeira final pois ganhando o Sacavenense, seria ele a seguir para a Liguilha.
A equipa lusitanista não faria história nesse torneio de competência, fazendo apenas 2 pontos, resultado de uma vitória ante o Fafe, e derrotas em Fafe e em ambos os jogos com o…Académico de Viseu, autêntica besta negra das equipas de Évora nesta prova, e que não deixaria por aqui os seus estragos.
A equipa tipo do Lusitano, muito laboriosa e recheada de jogadores da cidade e com vários anos de clube, era composta por Figueiredo, Leonel, Pio, Zambujo, Cunha, José Chico, Lopes, Mosca, Zorrinho, Avelar e Filipe. Para outras opções sentavam-se no banco habitualmente Gaspar, Carvalho, Silva Santos, Fernando, Quim e Custódio, este último um talento que acabou por se perder nas malhas da droga.

Em 1980-81 seria o Juventude a resgatar o protagonismo, voltando a estar a um pequeno passo da subida ao escalão máximo do nosso futebol.
Mantendo Dinis Vital, o clube apostou numa equipa mais jovem, mais barata e combativa, mas não menos valorosa, como que fazendo jus ao seu lema “Força de Vontade”. Saíram Guerra, Fernando Sousa, Pedro Paulo, Pinto, Ferro, Arnaldo José, Artur, Santos e Galhofas. Foram contratados o guardião Peres (ex-Beira Mar), os centrais Sabú e José Carlos (ambos ex-V.Setúbal), os médios Quim (ex-V.Setúbal), Fernando e Carvalho (ambos ex-Lusitano) e o experiente avançado Coentro Faria (ex-Barreirense, V.Setúbal e Montijo).
O princípio de temporada não foi bom, e à quarta jornada o Juventude estava abaixo da linha de água com três derrotas consecutivas. No final da primeira volta contudo, mesmo com o peso de 5 derotas e 4 empates em 15 jogos, a equipa já fora capaz de recuperar até ao sétimo lugar.
Na segunda volta o Juventude explodiu então para uma das mais entusiasmantes temporadas da sua longa história. Com várias vitórias consecutivas - muitas vezes tangenciais (11 no campeonato), série apenas interrompida por uma derrota no Campo Estrela por 1-0 (na primeira volta o Lusitano perdera 3-2 no Sanches de Miranda) -, a equipa de Dinis Vital foi trepando lugares na classificação, vencendo em terrenos difíceis como Faro (0-1 ao Farense com golo de José Fernandes), Cova da Piedade, Oriental, Odivelas ou Montijo. A quatro jornadas do fim o Juventude, com uma sequência de 11 vitórias em 13 jogos (lém da derrota no Campo Estrela, deu-se um empate caseiro a zero com o Desportivo de Beja) já era segundo a dois pontos do Estoril-Praia.
Na antepenúltima jornada, os eborenses venceram em casa o Vasco da Gama de Sines por 3-2, enquanto o Estoril derrapava perdendo o seu jogo e deixando-se igualar no topo da tabela. A equipa estorilista beneficiava contudo da vitória por 1-0 sobre o Juventude na última jornada da primeira volta, mas…ainda tinha de vir a Évora.
Na jornada seguinte o Estoril ganhou, mas o Juventude não foi capaz de pontuar no Estádio dos Barreiros diante do Nacional, perdendo por 2-0, num jogo que fez uma vez mais juntar uma pequena multidão junto da sede do clube para ouvir o relato.
Mas nada estava perdido. Na última jornada, com dois pontos a separá-los, jogava-se na Cidade Museu um Juventude-Estoril !
Em caso de vitória por dois golos de diferença o Juventude igualava o adversário e ganhava vantagem no confronto directo, subindo assim de forma directa, à primeira divisão.
Não me recordo de ver tão grande enchente no Sanches de Miranda, e só a presença da selecção em Évora terá trazido tanta gente ao futebol na cidade nos últimos 40 anos. Foi erguida uma bancada suplementar, e foi precisamente nela que me sentei. Tinha 11 anos.
Nessa tarde tórrida de domingo, Juventude alinhou com Peres, Simplício, José Carlos, Ricardo, Modas, Lelo, Quim, Fernando, Edvaldo, Coentro Faria e Bolota. Viriam a entrar depois Carvalho e Baía.
O Estoril-Praia, orientado por António Medeiros, apresentava uma equipa tremendamente experiente e base da sua temporada anterior na primeira divisão: Manuel Abrantes, Teixeirinha (ex-F.C.Porto), Franque (futuro jogador do Juventude), Pedroso, José António (futuro internacional do Belenenses já falecido), Paris, Manaca (ex Sporting e V.Guimarães), Salvado, Jerónimo (esse mesmo, agora do outro lado), José Abrantes e Diamantino (ex titular do Benfica, no início dos anos setenta).
Depois de uma primeira parte equilibrada, quando se estava à beira do intervalo, Coentro Faria fez uma recarga vitoriosa a um remate de meia distância, atirando para o fundo da baliza de Manuel Abrantes. Foi o delírio no estádio, com uma mini-invasão de adeptos eufóricos com um golo em tão importante momento.
Durante o intervalo a esperança tomou conta do estádio e da cidade. Mas logo aos 5 minutos do segundo tempo, José Abrantes desviou um cruzamento de Diamantino e bateu Peres, restabelecendo a igualdade.
O Juventude sentiu muito este golo, e não mais voltou a ser a mesma equipa acutilante que fora até então. Veio ao de cima a experiência estorilista, e a dez minutos dos noventa, de novo José Abrantes em lance individual, acabou com o jogo e com a ilusão dos da casa. 1-2 foi o resultado final, com a invasão a ser agora dos muitos adeptos que acompanharam o Estoril e no relvado fizeram a festa de uma subida que deixou Évora em lágrimas.
Como vimos, já por três ocasiões o Juventude havia estado perto da subida à primeira divisão. Todavia nunca esses momentos de decisão tinham sido em Évora, nem na fase regular da prova. Este foi pois um momento que fica na história do clube, como um dos mais amargos, mas seguramente um dos mais altos.
Depois ficou uma vez mais a polémica, sobretudo em torno de Coentro Faria que, à data desta decisiva partida, estaria já comprometido com o Estoril, onde jogou no ano seguinte. O ponta-de-lança, que marcara 15 golos no campeonato (mais sete que Bolota, o segundo melhor marcador da equipa) foi então acusado de falta de zelo contra a sua futura equipa, algo que poderia ter estado na origem da derrota. Acusações sem sentido, até porque Franque, defesa estorilista, viria para o Juventude no ano seguinte. Coentro Faria viria mais tarde, em duas ocasiões, a treinar a equipa eborense.
Na Liguilha (agora a quatro), uma equipa cansada, desmoralizada e descrente, foi facilmente batida em casa e fora por Nazarenos e …Académico de Viseu (que mais uma vez ganhava esta poule). Só perante o Leixões o Juventude conseguiu dar um ar de sua graça, batendo os “bebés” por 3-0 em casa, e empatando no estádio do Mar 2-2.
O Lusitano fez um campeonato discreto acabando em 9º lugar.

Na época seguinte (1981-82) o Juventude começou muito bem, parecendo querer finalmente vingar-se da sua sorte. Ao fim de três jornadas, três vitórias e liderança isolada.
Seria sol de pouca dura, pois a equipa não tinha já a mesma coesão, e acabaria por ir perdendo fulgor, acabando em 6º lugar.
As aquisições foram várias, a saber: Damas e Andrade (ex juniores do Sporting), Franque (ex-Estoril), Marco Aurélio (ex-F.C.Porto, a quem Toni partira uma perna dois anos antes), Manuel Fernandes (ex-Belenenses), Zezinho (ex-Beira Mar), Marinho (ex-Farense), Pais, Barbosa e José António. Mas por outro lado saíram Bolota, Peres e José Carlos (todos para o rival Lusitano), além do já falado caso de Coentro Faria.
As notas de realce desta temporada foram dadas pelas duas vitórias sobre o Lusitano -impedindo-o de disputar a Liguilha, pois ficou em 3º lugar, com uma equipa em que o goleador Cândido era a principal estrela -, por 4-2 em casa e por 1-3 no Campo Estrela, mas sobretudo pela presença nos quartos-de-final da Taça de Portugal, onde depois de bater o Odivelas com um golo solitário de Zezinho num sábado de Carnaval, o Juventude soube que iria defrontar, também em casa, a equipa mais acessível do lote, o Ginásio de Alcobaça, também da II divisão, mas lider destacado da zona centro. Quem se apurasse para as meias-finais, teria como possíveis adversários Benfica, Braga e Sporting – no caso seria o Sporting em Alvalade.
Nesse jogo, com estádio cheio, reviveu-se o drama da época anterior frente ao Estoril. Dois golos de Nelito cedo definiram o rumo da eliminatória, e nem o golo de Lelo chegou para sonhar mais alto. 1-2, maldito resultado…
Lelo e Modas transferir-se-iam para o Ginásio de Alcobaça na época seguinte, em que jogaram na primeira divisão, voltando a Évora na temporada seguinte, depois de terem descido.

1982-83 marca o fim de um ciclo. O Juventude, desgastado anímica e financeiramente de tanta tentativa frustrada, vítima de uma região empobrecida em tempos de recessão económica, deixava-se enlear no novelo dos salários em atraso e caía para a III divisão.
Ameaças de greve, faltas a treinos, de tudo aconteceu nesta temporada. Muitos jogadores saíram, poucos ficaram. 14º lugar com 25 pontos foi bilhete para a despromoção.
O Lusitano, que nesta época, com uma equipa fortíssima - Peres, Manuel Fernandes, Paulo César, Dedeu, Cândido, Quim, Américo e o regressado a Évora José Luís, orientados por…Dinis Vital - voltou à Liguilha, perdendo para o Espinho a hipótese de subida, seguiria o mesmo caminho poucos anos mais tarde, acabando por descer em 1985-86.

Daí para cá não mais as equipas eborenses se aproximaram do escalão maior. A Liga de Honra tornou-se num filtro demasiado selectivo para estimular investimentos, e as subidas à II divisão B foram os únicos grandes motivos de regozijo para um e outro clubes.
Desde 1983 o Juventude dividiu as suas presenças entre a IIB e a III (doze épocas em cada, com três subidas e três descidas), nunca mais conseguindo o protagonimso anterior.
Dois quartos lugares na II B, com o técnico João Cardoso, foram o que de melhor a equipa eborense conseguiu nos últimos 15 anos, apesar de terem passado pelo Juventude jogadores como Mamede (que fez carreira no futebol italiano, designadamente na Reggina), Juvenal (partiria para o V.Setúbal), Trindade (seguiu para norte, jogando em alguns clubes da Liga de Honra), Paulo Barreto, Rui Pedro, João Cabral, Ença Camará, Ibraima, João Serrano, Stoynov, Ciro, Nuno Gaio ou David (este logrando a fama nesta época ao marcar no Dragão o golo vitorioso do Atlético em jogo da Taça).
O Juventude permanece há sete épocas consecutivas na terceira, tendo agora óptima oportunidade para regressar ao seu lugar.
O Lusitano por seu turno, desde que desceu em 1986, apenas disputou a II divisão em quatro épocas, descendo mesmo em 2003 aos Distritais, naquele que foi o momento mais negro da sua brilhante história, e que na próxima semana se poderá lamentavelmente repetir.
Veremos o que acontece no domingo, e que continuidade terá a história destes dois históricos emblemas.
FOTOS: www.juventudesportclube.blogspot.com e www.cromosdefutebol.blogspot.com