23/01/14

À HORA CERTA

Sou do tempo em que as tardes de domingo eram sinónimo de futebol. A jornada começava integralmente às 15.00 horas, e terminava às 17.00 horas. No horário de Verão, acrescentava-se uma hora. À noite viam-se os resumos, já no conforto do lar, preparando uma semana de trabalho ou de escola, conforme o caso. A partir da década de noventa, as transmissões televisivas foram afastando o futebol do seu horário natural, afastando, com isso, o povo dos estádios. Talvez fosse esse o intuito daqueles a quem convinha que a estrutura de receitas dos clubes ficasse cada vez mais dependente do cachet televisivo, tolhendo-lhes assim a capacidade negocial, numa relação de poder que se foi tornando cada vez mais assimétrica. Ao passo que nas principais ligas europeias continuámos a ver as principais partidas disputadas à luz do dia, em Portugal quase todos os jogos foram progressivamente empurrados para horário nocturno - por vezes aos sábados, mas também aos domingos, e até às segunda-feiras. Lá fora, estádios cheios. Cá dentro, bancadas tristes e despidas. Lá fora, sustentabilidade financeira. Cá dentro, operadores televisivos ricos e clubes falidos. No caso do Benfica, tratando-se de um emblema com implantação de norte a sul do país, parte significativa dos sócios e adeptos viu-se impedida de se deslocar à Luz. Para quem resida, por exemplo, em Viseu, Guarda, Bragança ou Faro, sair do estádio às 23.00 horas, e ainda ter de suportar uma longa viagem, não pode deixar de ser um exercício penoso, sobretudo se no dia seguinte houver que trabalhar bem cedo. O regresso do futebol às tardes de domingo (ou de sábado) é pois uma excelente notícia que esta temporada trouxe aos benfiquistas. Principalmente àqueles que vivem fora de Lisboa, e para quem ao próprio jogo há que acrescentar a duração da viagem de regresso a casa. Vicissitudes várias talvez ainda não tenham permitido que tal se reflicta com firmeza no número de espectadores no estádio. Mas o tempo irá seguramente dar razão a esta aposta.

DESTE MUNDO E DO OUTRO

1. Eusébio merecia. O Benfica, e os benfiquistas, estiveram à altura da ocasião. Não terá sido uma partida excepcional sob o ponto de vista técnico, mas foi uma grande tarde de futebol, com estádio cheio, muito entusiasmo, emoção a rodos, bons golos, desportivismo dentro e fora do campo, e uma grande vitória do Glorioso. É justo dizer-se que também os adeptos do clube rival, na sua maioria, souberam comportar-se com dignidade, respeitando a memória do Rei, e contribuindo para a fantástica atmosfera que este jogo – devolvido ao horário nobre do futebol – proporcionou. A nossa vitória foi justíssima. Podia até ter sido mais ampla, dada a demonstração de superioridade que o conjunto encarnado foi capaz de exibir ao longo dos noventa minutos. Não enchendo o olho, o Benfica deixou claro que tem a melhor equipa do panorama nacional, sendo, nesta altura, o mais forte candidato ao título. Conquistámos apenas três pontos. Na tarde do próximo domingo estarão em jogo mais três. Faltam ainda quinze finais, e em cada uma delas será necessário repetir o empenho dentro do campo, e o apoio nas bancadas. Se tal acontecer, em Maio a festa será nossa. 2. Cristiano Ronaldo venceu a Bola de Ouro da FIFA pela segunda vez. Trata-se de um reconhecimento justo pelo seu desempenho ao longo do ano de 2013, em que foi efectivamente o melhor. As comparações com Eusébio são dispensáveis, pois não acrescentam nada a um ou a outro - ambos estrelas planetárias, cada qual a seu tempo. Bom seria, isso sim, que noutros sectores de actividade o nosso país mostrasse ao mundo tão eloquentes representantes. Eusébio no Benfica, Cristiano Ronaldo no Manchester United e no Real Madrid, ambos na Selecção Nacional, alcançaram um nível apenas ao alcance de um estrito lote de predestinados. Juntamente com Di Stefano, Pele, Maradona, Cruyff e Messi, fazem parte integrante da história do futebol. Oxalá o Mundial do Brasil consagre definitivamente Ronaldo, tal como o Mundial de Inglaterra consagrou Eusébio.

O NOSSO REI

Sabíamos que um dia teria de acontecer. Porém, nunca estamos devidamente preparados para ver partir aqueles que nos são queridos. Achamos sempre cedo demais, mesmo quando o tempo vivido foi suficiente para deixar uma marca profunda. Eusébio deixou uma marca profundíssima, quer no Benfica, quer no país. Pelo talento que fez dele um dos maiores jogadores da história do futebol mundial, e também pela dimensão humana que sempre soube aliar ao sucesso que atingiu. Foi a conjugação dessas duas vertentes que o transformou numa lenda. É esse traço incomum que não deixa espaço a quaisquer comparações, podendo, e devendo, servir de exemplo a todos – dentro ou fora do desporto. Eusébio é Benfica escrito com sete letras diferentes. É, e sempre será, o nosso supremo Rei. Não foi ele que criou o clube, mas foi ele que criou o clube grandioso que a minha geração herdou. Um mero olhar estatístico permite facilmente reconhecer um Benfica antes, e outro depois, do Pantera Negra. Infelizmente, já não cheguei a tempo de o ver jogar ao vivo. É algo que lastimo, e que, confesso, me faz sentir de certa forma amputado no meu benfiquismo. Também não privei com ele. Deu-me um inesquecível autógrafo em 1983, à porta do antigo Estádio da Luz; e apertei-lhe a mão, bastantes anos mais tarde, numa ocasião de circunstância. Mas não é preciso muito para se conhecer Eusébio, tal o seu gigantismo, tal a sua transparência, tal a sua simplicidade. O King foi, é, e continuará a ser, demasiado grande (e para se ser tão simples é preciso ser mesmo muito grande), como jogador, e como figura histórica nacional e internacional. Sobrepôs-se ao país. Sobrepôs-se até ao próprio Benfica. Foi único. É único. Muitas palavras têm sido ditas, e escritas, nos últimos dias, a seu respeito. Dir-se-ão, e escrever-se-ão, muitas outras. Mas todas elas serão sempre insuficientes para traduzir fielmente o seu legado. A fasquia que Eusébio nos deixa é altíssima. Teremos agora de saber estar à altura da sua memória. É esse o nosso desafio.